terça-feira, 27 de novembro de 2012

EDIÇão Nº 15: O REI ESTÁ NU


POMBO CORREIO

E continua o problema da ausência de fotos e desenhos e ilustrações. Perdão, leitores!

TRIBUNAU CONDENA: (2) O rei está nu

Carnaval nota 10

2011, o Carnaval cai em março, de 05 a 08.

Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, cheia de encantos mil.

O carnaval de rua voltou para sempre, com os blocos, suas criativas fantasias e nomes divertidos, além dos mijões dos quatro sexos.

Na Sapucaí, o de sempre.

Uma rede de televisão comanda o espetáculo, com seus medíocres comentaristas e as famosas raras exceções, não escondendo suas preferências. Mesmices, erros de concordância e poucas novidades.

Se o Carnaval é uma arte, poucos duvidam disso, e arte cinematográfica, o que parece que virou, então os que se interessam, e são muitos, vão poder se deliciar, entra ano, sai ano, com uma seqüência (com trema, revisor) de repetições, à exaustão, como se fosse uma novela sem fim, até que umas três ou quatro Escolas Tradicionais resolvam se unir e partam para um desfile de Escolas de Samba, daquelas em que o Samba é a razão maior e única de ser.

Entre os diferentes interesses, os confessáveis e os inconfessáveis.

Entre os primeiros, os daqueles que confessam seu amor e sua paixão por sua Escola preferida, geralmente escolhida desde que, ainda crianças, ensaiavam os primeiros passos e rodopios. Dependendo da idade, os passos de samba foram ganhando velocidade, passaram a passos de marcha (nada contra as deliciosas marchinhas carnavalescas, mas seu lugar é outro, era nos corsos e nos clubes, agora é nos blocos), até que resolvam todos ir para Pernambuco, pois é lá que se dança o verdadeiro Frevo, a dança de velocidade máxima, que parece ser o ômega das atuais escolas de samba.

Entre os que professam os interesses inconfessáveis, além daquela rede de televisão e suas duas agremiações coligadas preferenciais, destaques para os criminosos de colarinho branco, disfarçados pelos colares havaianos coloridos, que dão um ar de respeitabilidade que não possuem quando vestem a verdadeira fantasia do resto do ano e vão desfilar suas verdadeiras vocações nas devidas instituições públicas e privadas, sustentados por nós, os eternos otários.

E ainda, as celebridades sem talentos, que tiram a roupa para mostrar seus verdadeiros dotes artísticos, seios e bundas no atacado e no varejo.

E, ainda, ainda, os jogadores de futebol, que se arrastam pelos gramados durante o ano, mas esbanjam invejáveis preparos físicos nas escolas de marcha.

E ainda, ainda, ainda, os criminosos agraciados com a alcunha eufemística de contraventores, que se associam em bandos para fazer a maior festa do planeta, muitos dos quais carregando nas costas uma sacola cheia de inumeráveis processos que nunca se transformam em sentenças de prisões. Isso sem falar nos patrocinadores que devassam os camarotes vendendo cervejas de qualidades duvidosas, com uma devassinha anunciando, com carinha de virgem, dizendo que detesta gosto de qualquer cerveja.

Outra grande curiosidade do desfile são as notas, de oito a dez, com intervalos decimais, para dar uma sensação de equilíbrio que nunca existirá. Nesse ano de 2011, o fogo queimou as notas de três agremiações, que não concorreram, com a garantia de não caírem para a segunda divisão. Das que concorreram, seria fácil deduzir que São Clemente e Porto das Pedras ficariam com os últimos lugares disputados, e a tradicional Acadêmicos do Salgueiro, depois do mico kingkonguiano, como estampou em manchete apropriada um jornal carnavalesco local, bem perto das últimas.

O Cristo crítico do Joãosinho Trinta não pôde, anos atrás, obrigado a desfilar oculto sob uma capa plástica preta, mas o Cristo Pai do rei pode, afinal rei é rei e pode usar qualquer símbolo para santificar sua pretensa e pretensiosa majestade.

Uma medida para aumentar a sensação de equilíbrio seria colocar Cristo em todas as escolas, aí teria que haver empate nesse quesito, pois estaria garantida a onipotência, onisciência e onipresença, resultando em uma desejável equivalência.

Assim o Filho de Deus não interferiria no resultado. Também, quem sabe, para reforçar o conceito, toda Comissão de Frente deveria portar uma tabuleta com os dizeres “Jesus Cristo eu estou aqui”. Isso ele disse anos depois de gritar ‘’E que tudo mais vá pro Inferno!”, que positivamente não é o endereço do Avô do rei, rei de que mesmo? Ah... da velha Jovem Guarda, não a Velha Guarda da Portela nem da Mangueira, mas das coroas desesperançadas e das mulheres mal-amadas.

E assim se dispôs o Carnaval de 2011, o Carnaval Nota 10!!!!!!!!

Da realeza dos camarotes, da democracia relativa das arquibancadas, dos confessáveis e dos inconfessáveis, ainda um espetáculo, mais que nunca cinematográfico.

Voltando às notas, uma contradição, pois se é arte, se arte se admira e se arte não se compara, ou não deveria ser objeto de comparação, aconteceram coisas mirabolantes e que merecem uma abordagem mais minuciosa.

Por exemplo, das 450 notas válidas, incluindo-se as descartadas, 36% foram nota 10 (dez), 20 % foram nota 9,9 e 20 % foram nota 9,8, totalizando 76 %. Se adicionarmos os 12% de notas 9,7 e os 5% de notas 9,6 restariam apenas 7% para notas de 9,5 para abaixo. Por que, então, não aumentarem a falsa sensação de equilíbrio, colocando o mínimo em 9,6 e o máximo em 10? Ou então 5, 4, 3, 2, 1? Quem sabe zero para quem tirasse 9,5  ou menos? Não, não pode, não é a mesma coisa, o locutor oficial tem que poder berrar Deeeeeeez!!! Nota Deeeeeeez!!! Assim, tonitruante ou tronitoante, causará orgasmos múltiplos  nas galeras das arquibancadas e nas mesas das elites presidenciais.

Se no total 36% foram de notas 10, a vencedora, quase à imagem e semelhança da perfeição, teve 86% de nota máxima. É a escola que não erra, ninguém atravessa o desfile, não há claros entre as alas, o samba é sensacional, produzido por 8 parceiros, cada um contribuindo com 3,375 versos. Tudo isso, claro, sob as bênçãos do Pai do rei, do Filho do Avô do rei.

Em tempo, o melhor verso foi o primeiro: “A saudade”. O segundo melhor foi o último: “E mostrar pro mundo essa simplicidade”. Genial! O primeiro verso rimando com o último, com outros 25 no meio, o samba deve ser candidato à melhor letra de todos os tempos. Quem é “Tira o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”, frase de Guilherme de Brito e Alcides Caminha, musicada pelo homenageado pela Escola que ganhou medalha de bronze, perto daquela obra-prima? Mas o recorde de parceiros foi da última colocada, com 14 compositores para a elaboração de 30 versos, com 2,142 versos per capita. Que teve apenas uma nota dez.

Vejamos a principal discrepância entre as notas dos jurados em um dos quesitos mais importantes, a mais escandalosa, no julgamento da Bateria: Beija-Flor (Máx=10, mín=9,9); Unidos da Tijuca (Máx=10, mín=9,8); Mangueira (Máx=10, mín=9,0). Fiquemos por aqui, pois todas as demais tiveram discrepâncias menores que a da Estação Primeira, nesse quesito específico, Estação Última. Os entendidos em bateria disseram que a “paradona” de 20 segundos, usada pela primeira vez na História das Escolas de Samba, foi uma ousadia absolutamente inovadora, surpreendente, e que “caiu bem” na composição, sem atravessar o samba. Pois bem, dois jurados deram nota 10, concordando com os entendidos, dois jurados ficaram “levemente incomodados”, tirando um décimo, e um, que deve ser um gênio da raça, ficou deveras puto com aquele silêncio ensurdecedor, pois tirou um ponto.

Poderia parar por aqui. Mas, vejamos a principal coincidência: a vencedora, em 5 dos 10 quesitos, obteve a concordância de todos os jurados, que foram perfeitamente coincidentes em observar a perfeição da nota 10. Enquanto isso, a segunda colocada só em 1 dos 10 quesitos (Comissão de Frente, reconhecida como novidade) obteve tal louvor, e a terceira em dois quesitos foi tida como perfeita (Enredo e Samba-Enredo, dois dos três mais importantes em se tratando de samba).

O festival de notas 10 da vencedora do desfile foi obra de Deus, ou de seu Filho, ou de seu neto, o rei vestido de azul. Vestido de azul?

O abraço unindo o rei da velha jovem guarda e o rei da contravenção foi esclarecedor.

Alguém, na multidão, com certeza viu que o rei estava nu.

Belo Horizonte, 11 de Março de 2011.

Paulinho Pavaneli, um sambófilo.


ESPORTES

 
Os pagadores da promessa

 
Uma das principais provas de amor que um filho pode dar ao pai é segui-lo, sem contestação, na escolha do time de coração.

É clássico o exemplo de um pai, flamenguista, dispor sobre a cama, ao filho nem bem recém nascido, duas camisas, uma de fundo branco, com duas faixas horizontais, uma vermelha e outra preta, e outra vermelha e preta em listras horizontais intercaladas, dizendo para que o guri escolha, livremente, qual das duas prefere. O menino escolhe a segunda, porque chama mais atenção, e só depois de alguns aniversários vai perceber que ambas traziam no peito o mesmo distintivo.

Esse exemplo cabe para todos os pais, todos os filhos e todos os times, só variando as cores dos idolatrados pavilhões.

Não submeti nenhum dos meus três filhos a tal processo democrático de escolha, o que deve explicar meus dois fracassos compensados pelo único sucesso.

Entre os fracassos, o do filho mais novo, por influências dos amigos de escola, um dia chegou em casa, esperou o momento mais apropriado e declarou, respeitosamente, que era atleticano. Não tive um ataque cardíaco, senão não estaria aqui escrevendo essas lembranças.

Entre os que mais o influenciaram na traição, um permaneceu na condição de grande amigo, mesmo depois de seguirem cursos e vidas diferentes, levando nos respectivos corações, como denominador comum, a paixão pelo Galo.

Entre as maiores curiosidades dos torcedores de Minas Gerais destaca-se o ódio pelo adversário, cuja derrota causa mais prazer que uma vitória do próprio time.

Um dia esse meu filho traidor telefona para aquele amigo, aquele que foi o responsável pela traição, para convidá-lo para uma festa na casa de não sei quem, para encontrar os amigos comuns.

A resposta negativa causou estranheza em princípio, transformando-se em clareza total após a explicação.

A resposta foi a seguinte: que ele e o pai, atleticano que teve sucesso em todas as três tentativas que fez, estavam viajando para Aparecida do Norte, para agradecer uma graça alcançada.

Com que finalidade? Agradecer uma doença curada em pessoa da família? Agradecer o prêmio ganho na loteria? Agradecer o emprego com carteira assinada obtido pelo filho? Agradecer a dádiva de ter uma família unida durante tantos anos?

Nenhuma das perguntas-respostas anteriores.

A viagem estava sendo feita para agradecer a intervenção miraculosa de Nossa Senhora da Aparecida, a padroeira do Brasil, pela derrota do rival, aquele time de azul, na Copa Libertadores da América, para um time argentino.

Promessa feita, promessa cumprida.


Belo Horizonte, 01 de Maio de 2010.
Paulinho Pavaneli.

Um comentário: