BOOMERANG
>>>>>>>>>> O
Coronel da Reserva do Exército Brasileiro, de nome Lício Augusto Maciel,
declarou, em relação à repressão da ditadura, a seguinte pérola literária: “Os
que resistiram, morreram; quem não reagiu, viveu.”
<<<<<<<<<< O
Pau Comeu pergunta, ao Coronel Torturador, se Rubens Paiva reagiu, se Vladimir
Herzog reagiu... e proclama, em palavras, que o Coronel Torturador, porque
conivente, está condenado ao Esculacho e merece que seu nome seja declarado
como TORTURADOR EMÉRITO DO GOLPE MILITAR DE 1964. Que seus filhos e netos
saibam de quem se trata tal pai e avô.
ABRINDO O BAÚ
O livro “Meu time morreu
antes de mim” , que só será publicado se e quando Deus quiser, reúne 11
crônicas. Escalo minha seleção política de todos os tempos, no esquema 4-3-3,
que levou o Brasil ao bicampeonato mundial em 1958-1962. Comecei com Getúlio
Vargas.
Continuo com DARCY RIBEIRO,
que nasceu
em Montes Claros, Minas Gerais, no dia 26 de outubro de 1922.
Só posso recorrer
ao grande Joaquim Maria, mais conhecido pelo sobrenome Machado de Assis, nas
“Memórias Phostumas de Braz Cubas”, páginas 256, 394 e 186, para relembrar o
Grande Darcy, com três frases definidoras:
“Quem escapa a um
perigo ama a vida com outra intensidade”.
“(...) um grãozinho de sandice,
longe de fazer mal, dava certo pico à vida”.
“Deve ser um vinho enérgico a
política (...)”.
Para ajudar um
vizinho, naquela altura da vida classificado como um
ex-marido-recém-separado-sem-casa-própria-de-volta-para-a-casa-dos-pais, ofereci-me
para tomar conta do passarinho, um calopsita, que a ex-mulher não queria no
resto de sua casa nada mais que o lembrasse, além das suas duas filhas.
Contrariando
minha vocação libertária e ecológica tomei da gaiola e fiz a mudança para o meu
apartamento, onde arranjei um lugar de destaque, perto do bar e do som, em cima
da geladeira, com vista para a Serra do Curral e Serra da Piedade, cujo relevo
majestoso e visual exuberante já estava sendo poluído pelos espigões, o tal
progresso.
Com uma semana já
tinha me afeiçoado ao bichinho: tinha topete, assobiava o Hino Nacional e
passava o dia inteiro fazendo fiu-fiu... Batizei-o Darcy. Assim, sem poder
preencher o vazio deixado pela enorme ausência, arrumei um jeito pragmático de
relembrar, no dia-a-dia, o brasileiro topetudo, o brasileiro-brasileiro, o
brasileiro bom-de-mulher. Ao alimentar o passarinho, com a alface verde e a
semente amarela do girassol, alimentava em mim um pouco do legado daquele que
considero o penúltimo brasileiro.
De qual Darcy
lembrar?
(?) Do
antropólogo que olhava o país com a visão do seu povo, que vivia em sincronia
com a gente que aqui vive, goza e sofre em comum, que refletia com orgulho sua
imagem de povo mulato, olhando-o com a ótica do casebre, que discursava mesmo
numa simples entrevista com aquele tom candente marcado pela paixão dos
proscritos, que dizia não ter compromissos com as próprias ideias e sim com a busca
da verdade, que dizia esforçar-se para ser digno do drama do povo brasileiro,
que ousou teorizar um país que tem vergonha de si mesmo?
(?) Do agitador
cultural criador do Sambódromo?
(?) Do senador
das leis da educação, da doação dos órgãos, e outras tantas?
(?) Do educador
criador de Universidades e das escolas de tempo integral?
(?) Do ministro
que queria reagir ao Golpe?
(?) Do professor
que nunca precisou de giz, quadro-negro ou computador para ensinar?
(?) Do romântico
admirador, namorando e namorado, comedor e comido, das mulheres brasileiras de
todas as raças?
(?) Do amigo dos
índios e dos negros, do povo em geral?
(?) Do ser humano
que desafiou o câncer, dizendo aos sobreviventes que quase tudo é possível?
Saudades de todos
os Darcys...
No Brasil quem
morre vira gente boa nos jornais, independentemente do que fez em vida.
Costuma-se passar uma borracha nas cagadas obradas, nos êxitos sacanas, fazer
assepsia dos erros, essas coisas que transformam os mortos em mitos congelados.
Com Darcy não dá
para fazer isso: quente, vivo, calor próprio e verdadeiro, paira na lembrança
dos que irão depois ao seu encontro.
O que se escreve
logo assim que um homem público parte, eis um tema que merece um estudo mais
aprofundado. Confesso: chama-me a atenção esse fenômeno de revelar como os que
ficaram viam os que se foram. Isso é História, e como tal deveria ser tratado.
Nesses anos vividos lembro-me de quatro mortes de homens públicos que foram
sentidas convulsivamente pelas multidões: Vargas, Juscelino, Tancredo e Darcy.
Imagens extraídas
dos escritos que brindaram a última viagem do passarinho topetudo ajudarão a
compreender o que significou o Professor... De tantas, escolhi oito que julguei
representativas.
“(...) O seu enterro foi
como ele quis – glauberiano, formidável, miscigenado
e sincrético, misturando bandeiras, crenças e credos, negros e brancos, Bach e hinos
patrióticos, réquiem e hosanas. Nunca se
viu um funeral tão festivo e divertido. Nunca se riu, se cantou e se bebeu tanto num cemitério, dentro
e em volta”. Citação de Zuenir Ventura, no JB, 22-02-1997.
“(...) Em Campos, a
missa de sétimo dia foi vetada pelo bispo Dom Roberto
Guimarães, tanto no Campus da Universidade do Norte Fluminense (Uenf), criada por Darcy Ribeiro,
quanto na Catedral Diocesana,
sob a alegação de que o senador era ateu e votou contra a obrigatoriedade do ensino da
religião nas escolas públicas”. Reportagem no JB,
26-02-1997.
”(...) Agora prestam
atenção e me elogiam. Sabe por quê? Por causa do
câncer. O câncer tem um prestígio danado, seu moço.” Citação
de Darcy no
JB,22-02-1997.
“(...) Foi em Montes
Claros que encontrei a mulher mais generosa que conheci. Chamava-se Almerinda e era a rainha das putas da cidade. Ela me recebia
entre duas e três horas da tarde, que era quando tinha tempo livre e podia fazer de graça,
com um menino de 15 anos, o
que cobrava dos homens a partir das três e meia. Um belo dia, apareceu uma menina
muito bonitinha e a Almerinda percebeu que eu estava interessado. Sem
que eu soubesse, combinou uma transa e até emprestou
a cama. Nunca mais ganhei uma mulher de outra mulher, só da Almerinda”. Citação
de Darcy no JB, 18-02-1997.
“(...) Eu cuido dos
filhos dos outros.” Citação de Darcy, no jornal O Tempo, 18-02-1997.
“(...) outro orgulho é a
beleza da paisagem de Minas, onde o homem não
pôs a mão e o pé (...) Mas aí começa o capítulo das minhas tristezas.
Os mineiros estão acabando com Minas, até as montanhas eles conseguem roer (...)” Citação
de Darcy, no jornal O Tempo, 18-02-1997.
“(...) A herança de
termos sido o último país do mundo a acabar com a escravidão é hedionda. É a herança da capacidade de
gastar gente como
se queimasse carvão. De queimar negro, jogar no trabalho. Depois, quando
estava velho, estava ruim, deixava fugir ou largava ao seu destino. Essa capacidade de tratar
pessoas como coisa, essa perversidade intrínseca,
que é a capacidade de matar, de torturar. É uma
perversidade intrínseca na nossa herança, na nossa classe dominante. Nossa
classe dominante está enferma de desigualdade, de descaso.” Citação de Darcy,
entrevista a Regina Zappa no JB, 03-11-1996.
“(...) Que toquem
os tambores de todas as tribos – do campo e das cidades.
Morreu o grande pajé, foi embora o nosso bom selvagem, subiu aos céus o nosso feiticeiro. A utopia ficou
sem sua encarnação. A
política, a ética, a erótica e a poética perderam sua rima rica.” Citação
de Zuenir Ventura, no JB, 22-02-1997.
Depois de tudo
isso, um dia escrevi a seguinte carta.
"Caro amigo
Professor.
Aproveito sua
partida para mandar lembranças aos outros que estão por aí, você sabe quem.
Aproveito sua
presença, ouvindo o assobio do passarinho, para confessar que no dia da sua
viagem eu estava meio desanimado: era noite de um dia de segunda-feira, o pior
da semana, em que os suicídios mais acontecem pelo menos nas estatísticas, em
que os amores desabam, em que os projetos morrem, em que o ânimo de viver se esvai.
Quando cheguei em
casa e liguei a tevê, soube da sua morte e, se fiquei sentido e muito, logo
deixei o tom aborrecido e lamentoso, saquei na hora que não era bem isso o que
você queria das pessoas que você influenciou na vida, daquelas que você fez a cabeça,
como se costuma dizer. Senti só um grande vazio, como se um companheiro de
conversas imaginárias de repente ficasse mudo, sem responder às dúvidas e
indagações cotidianas.
Sabe, Darcy,
nessas divagações às vezes era difícil achar um interlocutor que falasse a
mesma língua, então o aluguei diversas vezes na tentativa de entender o que
estava acontecendo.
Já tive o prazer
de apertar sua mão, logo após nossa derrota na eleição para governador do
estado do Rio de Janeiro, na sucessão do Brizola, quando eu era professor em
Ouro Preto e você foi lá descansar depois da campanha, na casa de uma amiga
comum.
Sabe, foi uma
conversa rápida e à noite, quando fomos jantar, verifiquei que não entendia
quase nada do que você falava, apesar de ter prestado muita atenção.
Não sei se foi só
a emoção, não, era a velocidade do seu pensamento, passando de um assunto a
outro como se quisesse falar de tudo ao mesmo tempo. Lento, não consegui
aproveitar tudo o que gostaria do papo, lamento. Mas foi ali que percebi que
você era de carne e osso, não de papel. E minha admiração atingiu o grau máximo
no meu admirômetro.
Essas coisas que
transcrevi logo acima, você deve saber, algumas você mesmo disse, outras foram
ditas por pessoas chegadas. Procurei dar uma ideia do clima do que aconteceu
logo após sua partida, os sentimentos que ficaram pairando no ar.
Do que pude
perceber, o day after foi, na
verdade, um hapenning, como deveria
ter sido. Tudo nos conformes.
As mulheres, um
caleidoscópio. As que choraram, as que sorriram, as que deram e as que se
arrependeram de não ter dado.
Os políticos, da
direita à esquerda, todos comovidos. Quais os sinceros, todos sabemos.
Os índios sem o
grande pajé, quase foram barrados no baile. Os negros, sem o profeta da
mistura. As crianças sem o tiozão, órfãs.
Minas, mais
pobre, montes, menos claros, horizonte, menos belo, Brasil, menor...
As esquerdas,
sinto muito, jamais se unirão: as vaidades não deixam. Vai faltar você, quem
sabe a última liga capaz de fazer o milagre...
A quem não
entendeu porque chamei você de “penúltimo brasileiro”, explico que nós, que
sobramos, somados, somos no máximo o último inteiro."
...
E assim terminou
a carta sem adeus.
(Paulinho Pavaneli, em 1997)
ESPORTES
Se Patrícia Amorim for reeleita presidenta do
Flamengo, então vou lançar a proposta de redenominar o clube para CRUBE DE
RESGATE DO FRAMENGO.
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