domingo, 25 de novembro de 2012

EDIÇÃO Nº 13: "DARCY RIBEIRO, MEU XODÓ"



BOOMERANG

>>>>>>>>>> O Coronel da Reserva do Exército Brasileiro, de nome Lício Augusto Maciel, declarou, em relação à repressão da ditadura, a seguinte pérola literária: “Os que resistiram, morreram; quem não reagiu, viveu.”

<<<<<<<<<< O Pau Comeu pergunta, ao Coronel Torturador, se Rubens Paiva reagiu, se Vladimir Herzog reagiu... e proclama, em palavras, que o Coronel Torturador, porque conivente, está condenado ao Esculacho e merece que seu nome seja declarado como TORTURADOR EMÉRITO DO GOLPE MILITAR DE 1964. Que seus filhos e netos saibam de quem se trata tal pai e avô.


ABRINDO O BAÚ

O livro “Meu time morreu antes de mim” , que só será publicado se e quando Deus quiser, reúne 11 crônicas. Escalo minha seleção política de todos os tempos, no esquema 4-3-3, que levou o Brasil ao bicampeonato mundial em 1958-1962. Comecei com Getúlio Vargas.

Continuo com DARCY RIBEIRO, que nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, no dia 26 de outubro de 1922.

Só posso recorrer ao grande Joaquim Maria, mais conhecido pelo sobrenome Machado de Assis, nas “Memórias Phostumas de Braz Cubas”, páginas 256, 394 e 186, para relembrar o Grande Darcy, com três frases definidoras:

                                    “Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade”.

                                    “(...) um grãozinho de sandice, longe de fazer mal, dava certo                                             pico à             vida”.

                                    “Deve ser um vinho enérgico a política (...)”.

 

Para ajudar um vizinho, naquela altura da vida classificado como um ex-marido-recém-separado-sem-casa-própria-de-volta-para-a-casa-dos-pais, ofereci-me para tomar conta do passarinho, um calopsita, que a ex-mulher não queria no resto de sua casa nada mais que o lembrasse, além das suas duas filhas.

Contrariando minha vocação libertária e ecológica tomei da gaiola e fiz a mudança para o meu apartamento, onde arranjei um lugar de destaque, perto do bar e do som, em cima da geladeira, com vista para a Serra do Curral e Serra da Piedade, cujo relevo majestoso e visual exuberante já estava sendo poluído pelos espigões, o tal progresso.

Com uma semana já tinha me afeiçoado ao bichinho: tinha topete, assobiava o Hino Nacional e passava o dia inteiro fazendo fiu-fiu... Batizei-o Darcy. Assim, sem poder preencher o vazio deixado pela enorme ausência, arrumei um jeito pragmático de relembrar, no dia-a-dia, o brasileiro topetudo, o brasileiro-brasileiro, o brasileiro bom-de-mulher. Ao alimentar o passarinho, com a alface verde e a semente amarela do girassol, alimentava em mim um pouco do legado daquele que considero o penúltimo brasileiro.

De qual Darcy lembrar?

(?) Do antropólogo que olhava o país com a visão do seu povo, que vivia em sincronia com a gente que aqui vive, goza e sofre em comum, que refletia com orgulho sua imagem de povo mulato, olhando-o com a ótica do casebre, que discursava mesmo numa simples entrevista com aquele tom candente marcado pela paixão dos proscritos, que dizia não ter compromissos com as próprias ideias e sim com a busca da verdade, que dizia esforçar-se para ser digno do drama do povo brasileiro, que ousou teorizar um país que tem vergonha de si mesmo?

(?) Do agitador cultural criador do Sambódromo?

(?) Do senador das leis da educação, da doação dos órgãos, e outras tantas?

(?) Do educador criador de Universidades e das escolas de tempo integral?

(?) Do ministro que queria reagir ao Golpe?

(?) Do professor que nunca precisou de giz, quadro-negro ou computador para ensinar?

(?) Do romântico admirador, namorando e namorado, comedor e comido, das mulheres brasileiras de todas as raças?

(?) Do amigo dos índios e dos negros, do povo em geral?

(?) Do ser humano que desafiou o câncer, dizendo aos sobreviventes que quase tudo é possível?

Saudades de todos os Darcys...

No Brasil quem morre vira gente boa nos jornais, independentemente do que fez em vida. Costuma-se passar uma borracha nas cagadas obradas, nos êxitos sacanas, fazer assepsia dos erros, essas coisas que transformam os mortos em mitos congelados.

Com Darcy não dá para fazer isso: quente, vivo, calor próprio e verdadeiro, paira na lembrança dos que irão depois ao seu encontro.

O que se escreve logo assim que um homem público parte, eis um tema que merece um estudo mais aprofundado. Confesso: chama-me a atenção esse fenômeno de revelar como os que ficaram viam os que se foram. Isso é História, e como tal deveria ser tratado. Nesses anos vividos lembro-me de quatro mortes de homens públicos que foram sentidas convulsivamente pelas multidões: Vargas, Juscelino, Tancredo e Darcy.

Imagens extraídas dos escritos que brindaram a última viagem do passarinho topetudo ajudarão a compreender o que significou o Professor... De tantas, escolhi oito que julguei representativas.

                        “(...) O seu enterro foi como ele quis – glauberiano, formidável, miscigenado e sincrético, misturando bandeiras, crenças e credos, negros e brancos, Bach e hinos patrióticos, réquiem e hosanas. Nunca se viu um funeral tão festivo e divertido. Nunca se riu, se cantou e se bebeu tanto num cemitério, dentro e em volta”.       Citação de Zuenir Ventura, no JB, 22-02-1997.

                        “(...) Em Campos, a missa de sétimo dia foi vetada pelo bispo Dom Roberto Guimarães, tanto no Campus da Universidade do Norte Fluminense (Uenf), criada por Darcy Ribeiro, quanto na Catedral Diocesana, sob a alegação de que o senador era ateu e votou contra a obrigatoriedade do ensino da religião nas escolas públicas”.  Reportagem no JB, 26-02-1997.

                        ”(...) Agora prestam atenção e me elogiam. Sabe por quê? Por causa    do câncer. O câncer tem um prestígio danado, seu moço.” Citação de Darcy no JB,22-02-1997.

                        “(...) Foi em Montes Claros que encontrei a mulher mais generosa que conheci. Chamava-se Almerinda e era a rainha das putas da cidade. Ela me recebia entre duas e três horas da tarde, que era quando tinha tempo livre e podia fazer de graça, com um menino de 15 anos, o que cobrava dos homens a partir das três e meia. Um belo dia, apareceu uma menina muito bonitinha e a Almerinda percebeu que eu estava interessado. Sem que eu soubesse, combinou uma transa e até   emprestou a cama. Nunca mais ganhei uma mulher de outra mulher, só da Almerinda”. Citação de Darcy no JB, 18-02-1997.

                        “(...) Eu cuido dos filhos dos outros.” Citação de Darcy, no jornal O Tempo, 18-02-1997.

                        “(...) outro orgulho é a beleza da paisagem de Minas, onde o homem não pôs a mão e o pé (...) Mas aí começa o capítulo das minhas tristezas. Os mineiros estão acabando com Minas, até as montanhas  eles conseguem roer (...)” Citação de Darcy, no jornal O Tempo, 18-02-1997.

                        “(...) A herança de termos sido o último país do mundo a acabar com a escravidão é hedionda. É a herança da capacidade de gastar gente como se queimasse carvão. De queimar negro, jogar no trabalho. Depois, quando estava velho, estava ruim, deixava fugir ou largava ao seu destino. Essa capacidade de tratar pessoas como coisa, essa perversidade intrínseca, que é a capacidade de matar, de torturar. É uma perversidade intrínseca na nossa herança, na nossa classe dominante. Nossa classe dominante está enferma de desigualdade, de descaso.” Citação de Darcy, entrevista a Regina Zappa no JB, 03-11-1996.                   

                        “(...) Que toquem os tambores de todas as tribos – do campo e das cidades. Morreu o grande pajé, foi embora o nosso bom selvagem, subiu aos céus o nosso feiticeiro. A utopia ficou sem sua encarnação. A política, a ética, a erótica e a poética perderam sua rima rica.” Citação de Zuenir Ventura, no JB, 22-02-1997.

Depois de tudo isso, um dia escrevi a seguinte carta.

"Caro amigo Professor.

Aproveito sua partida para mandar lembranças aos outros que estão por aí, você sabe quem.

Aproveito sua presença, ouvindo o assobio do passarinho, para confessar que no dia da sua viagem eu estava meio desanimado: era noite de um dia de segunda-feira, o pior da semana, em que os suicídios mais acontecem pelo menos nas estatísticas, em que os amores desabam, em que os projetos morrem, em que o ânimo de viver se esvai.

Quando cheguei em casa e liguei a tevê, soube da sua morte e, se fiquei sentido e muito, logo deixei o tom aborrecido e lamentoso, saquei na hora que não era bem isso o que você queria das pessoas que você influenciou na vida, daquelas que você fez a cabeça, como se costuma dizer. Senti só um grande vazio, como se um companheiro de conversas imaginárias de repente ficasse mudo, sem responder às dúvidas e indagações cotidianas.

Sabe, Darcy, nessas divagações às vezes era difícil achar um interlocutor que falasse a mesma língua, então o aluguei diversas vezes na tentativa de entender o que estava acontecendo.

Já tive o prazer de apertar sua mão, logo após nossa derrota na eleição para governador do estado do Rio de Janeiro, na sucessão do Brizola, quando eu era professor em Ouro Preto e você foi lá descansar depois da campanha, na casa de uma amiga comum.

Sabe, foi uma conversa rápida e à noite, quando fomos jantar, verifiquei que não entendia quase nada do que você falava, apesar de ter prestado muita atenção.

Não sei se foi só a emoção, não, era a velocidade do seu pensamento, passando de um assunto a outro como se quisesse falar de tudo ao mesmo tempo. Lento, não consegui aproveitar tudo o que gostaria do papo, lamento. Mas foi ali que percebi que você era de carne e osso, não de papel. E minha admiração atingiu o grau máximo no meu admirômetro.

Essas coisas que transcrevi logo acima, você deve saber, algumas você mesmo disse, outras foram ditas por pessoas chegadas. Procurei dar uma ideia do clima do que aconteceu logo após sua partida, os sentimentos que ficaram pairando no ar.

Do que pude perceber, o day after foi, na verdade, um hapenning, como deveria ter sido. Tudo nos conformes.

As mulheres, um caleidoscópio. As que choraram, as que sorriram, as que deram e as que se arrependeram de não ter dado.

Os políticos, da direita à esquerda, todos comovidos. Quais os sinceros, todos sabemos.

Os índios sem o grande pajé, quase foram barrados no baile. Os negros, sem o profeta da mistura. As crianças sem o tiozão, órfãs.

Minas, mais pobre, montes, menos claros, horizonte, menos belo, Brasil, menor...

As esquerdas, sinto muito, jamais se unirão: as vaidades não deixam. Vai faltar você, quem sabe a última liga capaz de fazer o milagre...

A quem não entendeu porque chamei você de “penúltimo brasileiro”, explico que nós, que sobramos, somados, somos no máximo o último inteiro."

...

E assim terminou a carta sem adeus.

 

 (Paulinho Pavaneli, em 1997)

ESPORTES

Se Patrícia Amorim for reeleita presidenta do Flamengo, então vou lançar a proposta de redenominar o clube para CRUBE DE RESGATE DO FRAMENGO.

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