O CASO BRUNO
(ocaso bruno)
O que seria dos cronistas
sem os dicionários?
Estariam, claro, condenados
ao fracasso sem perdão, sob pena máxima e reconhecimento mínimo.
Quando implodiu “O CASO
BRUNO” lembrei-me de, numa de minhas freqüentes (trema arcaico) viagens aos
dicionários, ter aprendido o significado da palavra BRUNO, adjetivo que
significa “escuro, sombrio, ou pardo ou infeliz”.
OCASO, juntando artigo
definido e substantivo, todo mundo sabe, significa “desaparecimento de um astro no horizonte, ou termo, fim, final, ou queda, ruína, decadência, extinção, morte, crepúsculo”.
A manchete do jornal chamou
minha atenção para essa infeliz coincidência.
As palavras escondem
significados além da imaginação de um pobre escriba.
Não vou tirar uma onda de
que tenho apenas dezessete leitores, como alguns cronistas metidos a
engraçadinhos gostam de proclamar. Contando comigo, somos dezesseis. Não vou
desfilar seus nomes, não vou comprometê-los, quero manter minha seleta
clientela. Não seria ninguém sem eles.
O fato é que título e subtítulo
guardam entre si uma profunda e verdadeira relação. Deixo aos leitores a tarefa
de criarem os vínculos mais adequados ao gosto de cada um.
Cuidarei de tentar
estabelecer as minhas observações.
Minha pequena galera sabe
que sou torcedor do Flamengo. Segundo alguns amáveis detratores, consideram-se
meus amigos apesar de. Sou muito exigente em relação às coisas do Flamengo,
acho o time atual um arremedo que às vezes me tira o ar e me causa medo. Sinto
arrepios ao assistir um jogo contra qualquer adversário. Nunca sei o que vai
dar como resultado, se vai ganhar um clássico ou se vai perder de uma
galinha-morta. Nesse sentido, gosto de viver perigosamente.
Tenho um resto de memória
ainda, apesar do passar dos anos, seletiva, viva em lembrar as admirações e os
desafetos.
Entre as admirações, João
Saldanha, técnico em raras ocasiões e sempre jornalista corajoso e competente.
Quando técnico, perguntado sobre como lidar com Fulano de Tal, notório mau
elemento, respondeu que não escolhia o jogador para se casar com sua filha, mas
para jogar e ganhar uma partida de futebol e um campeonato. Com isso, deixava
claro seu interesse. Sabia muito, escreveu sobre os subterrâneos do futebol. Se
fosse levar em conta o bom comportamento dos seus atletas, será que encontraria
onze para escalar?
Entre os desafetos, não vou
dar cartaz para quem não merece. No futebol, a maioria dos dirigentes, entre os
jornalistas especialmente os hipócritas que se acham os maiorais e que se
locupletam com a dinheirama que corre nas veias de interesses inconfessáveis.
Se o goleiro do meu time
defendeu pênaltis que deram o título, beleza...
Se ele ganha trocentos mil
reais por mês, beleza...
Se ele gasta o dinheiro dele
com o que quiser, beleza...
Se ele ganha dinheiro com
propaganda, beleza...
Na função de jogador, dentro
das quatro linhas, deve ser cobrado com vaias quando falha e premiado com
aplausos quando acerta. É do jogo. E jogo é jogo...
Quando o goleiro do meu
time, ao defender um colega de trabalho que teria batido na mulher, justifica o
fato dizendo que é normal, quem nunca de vez em quando não dá umas porradas na
mulher, entre outras barbaridades, deixa de ser jogador do meu time e passa a
ser uma ameaça à sociedade...
Uma ameaça que, ao que tudo
indica, materializou-se.
Isso não é fita, é vida
real.
Alguém morreu.
Alguém matou.
Alguém escondeu o cadáver.
Parece que ao menos isso
está evidente nesse tal de “O CASO BRUNO”. Ou será que ninguém morreu? Cadê a
vítima? Existe um filho. Ainda. É filho de algum pai. Mãe, dizem, só tem uma.
Pai pode ser qualquer um. Quem é o pai?
Pode ser dele, que a
camisinha furou. E se não for? E se for de outro?
Aí vem a minha birra com
isso que chamam de Justiça. Se o principal suspeito tem o direito reconhecido
de não produzir provas contra si próprio e se por isso pode se negar a fazer um
exame de DNA para provar a paternidade ou não, então, se o cadáver não
aparecer, o que resta?
Resta que não houve crime?
Cadê a mãe do filho que
ainda está vivo?
Dizem que morreu.
Quem não deve não teme. Ao
se negar, o que podemos pensar?
Confissão de culpa?
Artimanha de advogado?
Tudo é possível num país que tem uma Justiça que cada vez mais perde
seu valor e se transforma em justiça, ou justiça ou justiça.
Exemplos não faltam, seria
até enfadonho relacionar, a imensa maioria envolvendo gente endinheirada que
não vai em cana.
Não sei se ele é inocente ou
culpado do crime de morte e ocultação de cadáver... Mas de formação de
quadrilha e liderança está mais do que evidente, basta ver quem, no meio
daquela gente fina, tem mais dinheiro.
Achem ou não o corpo, o
crime aconteceu.
Aprendi a duvidar de tudo o que tenha alguma relação com a justiça em meu país.
No que toca ao meu time,
outros goleiros surgirão, como sempre, tão bons ou até melhores.
No que toca à sociedade, quem errou que pague, assim deve ser, embora
nossa justiça nem sempre faça isso com a simplicidade que
deve ter.
Fico por aqui.
No fim, o que resta são as
palavras e seus significados.
Trata-se do desaparecimento
de um astro no horizonte escuro. No caso, um ex-futuro astro.
Nada mais, nada menos que um
final infeliz.
Apenas ruína, decadência
sombria.
Um verdadeiro ocaso bruno.
E o Pimenta Neves?
Belo Horizonte, 19 de julho de 2010.
Paulinho Pavaneli.
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