terça-feira, 20 de novembro de 2012

EDIÇÃO Nº 12: ESPECIAL "ocaso bruno"



O   CASO   BRUNO

(ocaso bruno)

O que seria dos cronistas sem os dicionários?

Estariam, claro, condenados ao fracasso sem perdão, sob pena máxima e reconhecimento mínimo.

Quando implodiu “O CASO BRUNO” lembrei-me de, numa de minhas freqüentes (trema arcaico) viagens aos dicionários, ter aprendido o significado da palavra BRUNO, adjetivo que significa “escuro, sombrio, ou pardo ou infeliz”.

 

OCASO, juntando artigo definido e substantivo, todo mundo sabe, significa “desaparecimento de um astro no horizonte, ou termo, fim, final, ou queda, ruína, decadência, extinção, morte, crepúsculo”.

A manchete do jornal chamou minha atenção para essa infeliz coincidência.

As palavras escondem significados além da imaginação de um pobre escriba.

Não vou tirar uma onda de que tenho apenas dezessete leitores, como alguns cronistas metidos a engraçadinhos gostam de proclamar. Contando comigo, somos dezesseis. Não vou desfilar seus nomes, não vou comprometê-los, quero manter minha seleta clientela. Não seria ninguém sem eles.

O fato é que título e subtítulo guardam entre si uma profunda e verdadeira relação. Deixo aos leitores a tarefa de criarem os vínculos mais adequados ao gosto de cada um.

Cuidarei de tentar estabelecer as minhas observações.

Minha pequena galera sabe que sou torcedor do Flamengo. Segundo alguns amáveis detratores, consideram-se meus amigos apesar de. Sou muito exigente em relação às coisas do Flamengo, acho o time atual um arremedo que às vezes me tira o ar e me causa medo. Sinto arrepios ao assistir um jogo contra qualquer adversário. Nunca sei o que vai dar como resultado, se vai ganhar um clássico ou se vai perder de uma galinha-morta. Nesse sentido, gosto de viver perigosamente.

Tenho um resto de memória ainda, apesar do passar dos anos, seletiva, viva em lembrar as admirações e os desafetos.

Entre as admirações, João Saldanha, técnico em raras ocasiões e sempre jornalista corajoso e competente. Quando técnico, perguntado sobre como lidar com Fulano de Tal, notório mau elemento, respondeu que não escolhia o jogador para se casar com sua filha, mas para jogar e ganhar uma partida de futebol e um campeonato. Com isso, deixava claro seu interesse. Sabia muito, escreveu sobre os subterrâneos do futebol. Se fosse levar em conta o bom comportamento dos seus atletas, será que encontraria onze para escalar?

Entre os desafetos, não vou dar cartaz para quem não merece. No futebol, a maioria dos dirigentes, entre os jornalistas especialmente os hipócritas que se acham os maiorais e que se locupletam com a dinheirama que corre nas veias de interesses inconfessáveis.

Se o goleiro do meu time defendeu pênaltis que deram o título, beleza...

Se ele ganha trocentos mil reais por mês, beleza...

Se ele gasta o dinheiro dele com o que quiser, beleza...

Se ele ganha dinheiro com propaganda, beleza...

 

Na função de jogador, dentro das quatro linhas, deve ser cobrado com vaias quando falha e premiado com aplausos quando acerta. É do jogo. E jogo é jogo...

Quando o goleiro do meu time, ao defender um colega de trabalho que teria batido na mulher, justifica o fato dizendo que é normal, quem nunca de vez em quando não dá umas porradas na mulher, entre outras barbaridades, deixa de ser jogador do meu time e passa a ser uma ameaça à sociedade...

Uma ameaça que, ao que tudo indica, materializou-se.

Isso não é fita, é vida real.

Alguém morreu.

Alguém matou.

Alguém escondeu o cadáver.

Parece que ao menos isso está evidente nesse tal de “O CASO BRUNO”. Ou será que ninguém morreu? Cadê a vítima? Existe um filho. Ainda. É filho de algum pai. Mãe, dizem, só tem uma. Pai pode ser qualquer um. Quem é o pai?

Pode ser dele, que a camisinha furou. E se não for? E se for de outro?

Aí vem a minha birra com isso que chamam de Justiça. Se o principal suspeito tem o direito reconhecido de não produzir provas contra si próprio e se por isso pode se negar a fazer um exame de DNA para provar a paternidade ou não, então, se o cadáver não aparecer, o que resta?

Resta que não houve crime?

Cadê a mãe do filho que ainda está vivo?

Dizem que morreu.

Quem não deve não teme. Ao se negar, o que podemos pensar?

Confissão de culpa?

Artimanha de advogado?

Tudo é possível num país que tem uma Justiça que cada vez mais perde seu valor e se transforma em justiça, ou justiça ou justiça.

 

Exemplos não faltam, seria até enfadonho relacionar, a imensa maioria envolvendo gente endinheirada que não vai  em cana.

Não sei se ele é inocente ou culpado do crime de morte e ocultação de cadáver... Mas de formação de quadrilha e liderança está mais do que evidente, basta ver quem, no meio daquela gente fina, tem mais dinheiro.

Achem ou não o corpo, o crime aconteceu.

Aprendi a duvidar de tudo o que tenha alguma relação com a justiça em meu país.

No que toca ao meu time, outros goleiros surgirão, como sempre, tão bons ou até melhores.

No que toca à sociedade, quem errou que pague, assim deve ser, embora nossa justiça nem sempre faça isso com a simplicidade que deve ter.

Fico por aqui.

No fim, o que resta são as palavras e seus significados.

Trata-se do desaparecimento de um astro no horizonte escuro. No caso, um ex-futuro astro.

Nada mais, nada menos que um final infeliz.

Apenas ruína, decadência sombria.

Um verdadeiro ocaso bruno.

E o Pimenta Neves?

Belo Horizonte, 19 de julho de 2010.

 

Paulinho Pavaneli.

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