terça-feira, 13 de novembro de 2012

EDIÇÃO Nº 10: HOMENAGEM AO SEU VADINHO



 ABRINDO O BAÚ:
 “RELEMBRANDO SEU VADINHO, COMPANHEIRO DE BOTECO”

O primeiro livro lançado pelo autor do “Pau Comeu” denominou-se.....................................................
“ O  CORREDOR DA MORTE: Jesus está chamando!”. Pretendia ser uma homenagem a um botequim situado na Avenida Prudente de Morais, nº 666. Dentre as crônicas com que o autor procurou descrever alguns dos freqüentadores, com trema, destaco a que foi dedicada ao Seu Vadinho. Já adianto aos meus queridos leitores que o referido livro encontra-se esgotado, após tiragem impressionante de 50 mil (vezes dez elevado a menos três) exemplares, no ano da graça de 2004.
Segue aí.


Vindo da Avenida do Contorno, pelo lado direito, o quarteirão começa na esquina da rua Teixeira Mendes, segue pela avenida Prudente de Morais até a esquina da rua Acarau, dobra-se à direita e retoma a Teixeira fechando o polígono na avenida.

Cabelos brancos, baixinho, pouco mais de metro e meio, Seu Vadinho, 83 anos então, nasceu lá no Pequi. Mais precisamente no dia 03 de agosto de 1920, leão. Fez a vida no Pará de Minas, fazendeiro trocando cebola, segundo ele, ao comprar e vender gado. Entrou no negócio de pneus, quando então se deu bem e se aposentou empresário comerciante.

Casado com Dona Dária, companheira desde 1950. Casamento feliz. Mesmo quem não conhece o casal, quando eles passam lado a lado, sente que há amor na relação que caminha para o secular. Dois enamorados. Moram na rua Acarau e percorrem diariamente o quarteirão. Enquanto a esposa precisa de uma bengala para ajudar na caminhada, Seu Vadinho dispensa, só usa a sua, de bambu envernizado, para ser solidário com a cara-metade. Coluna vertebral ereta, perpendicular ao chão, saúde impressionante para a idade, só se queixa um pouco é da memória, que falha de vez em quando.

Assina o ponto, no boteco, no mínimo duas vezes por dia, pra tomar a cachacinha pela qual tomou gosto precoce aos doze anos, menino da roça. Um dia, o pai mandou-lhe tirar leite de manhãzinha, ameaçando chuva. Choveu. Chegou todo molhado e Joaninha, a Preta, falou pra ele tomar uma cachacinha que o pai fabricava, pra não pegar um resfriado.

Vadinho tomou aquela e nunca mais parou. Às vezes saboreia uma dose, mas já o vi virar cinco seguidas, devagar, sem cara feia, porque gosta mesmo e não toma qualquer uma. O velho reconhece que a mulher o transformou, depois que casou melhorou muito sua maneira de ver a vida e de viver a própria.

Filho médico, que já cansou de alertar o velho sobre os malefícios do álcool, filha artista plástica. Pegaram os pais no Interior e trouxeram para a Capital para ficarem mais perto dos cuidados com a saúde que aumentam com o tempo. Seu Vadinho toma remédio, mas gosta mesmo é da pinga, e como sempre há contraindicação, deixa o primeiro em prol da última. Que é sempre a penúltima.

Usa também o rapé, mas sem conteúdo alucinógeno, só mesmo para espirrar. A latinha traz a marca “Rapé Imburana”, produzida em Guarani, Zona da Mata de Minas Gerais, pertinho de São João Nepomuceno, terra natal do autor, meio do caminho do Rio de Janeiro até Ponte Nova, pela linha do trem que morreu.

Um dia adentra no recinto uma negra sensacional, metro e oitenta e cinco, toda bem resolvida em atributos físicos que beiravam a perfeição. O boteco fez aquele silêncio reverenciando a magnífica prova da existência de Deus e abafa o ruído da avenida com trânsito infernal. Só volta ao alarido depois que o monumento seca o refrigerante e vai passear suas qualidades em outras plagas. Aí alguém grita dizendo que era muita areia pro meu caminhãozinho.

Concordei que não chegava nem no joelho. E completei dizendo que Seu Vadinho daria conta daquela paisagem exuberante. O velho deu aquele sorriso maroto, que já tinha sido bom naquilo, mas já tinha pendurado as chuteiras. Falei que não acreditava, que fazia fé nele. No fundo eu queria mesmo era levantar a sua bola. Ele só olhou, sorriu e rebateu: pra quê, seu moço? E o Viagra, Seu Vadinho? Não uso, respondeu de bate-pronto, pra não despertar as bobagens que ainda tenho na cabeça e em nome da fidelidade conjugal.

Foi aí que me lembrei de um desenho do Lan, cartunista companheiro de torcida do Flamengo, italiano parecido com Seu Vadinho no tamanho e nos cabelos, não na falta de disposição. Na farmácia, batendo papo com o balconista, os dois azarando uma tremenda mulata de minissaia, quando o vendedor disse pro Lan que a casa já dispunha do modelo 36 horas, o baixinho percorreu o panorama, coçou o queixo, franziu as sobrancelhas e comentou: é pouco...

Seu Vadinho foi o primeiro e único brasileiro que o pessoal do boteco conheceu que assistiu, ao vivo, no Maracanã, a trágica final da Copa do Mundo de 1950. A memória falha, mas não esqueceu o verdadeiro velório em que se transformou a cidade após o apito final.

Diz o velho que tinha 30 mil réis, o pai arrumou outros 20 mil, e com os 50 mil, boa grana na época, foi para o Rio de Janeiro. Não pagou ingresso, cortesia de dois amigos que o convidaram, dando inclusive hospedagem por uma semana.

Quando voltou para o Pequi, tinha no bolso apenas 2 mil.

E o resto, Seu Vadinho?

Gastei na farra, moço!

Nenhum comentário:

Postar um comentário