“RELEMBRANDO SEU VADINHO, COMPANHEIRO DE BOTECO”
O primeiro livro lançado pelo autor do “Pau Comeu” denominou-se.....................................................
“ O CORREDOR
DA MORTE: Jesus está chamando!”. Pretendia
ser uma homenagem a um botequim situado na Avenida Prudente de
Morais, nº 666. Dentre as crônicas com que o autor procurou descrever alguns
dos freqüentadores, com trema, destaco a que foi dedicada ao Seu
Vadinho. Já adianto
aos meus queridos leitores que o referido livro encontra-se esgotado, após tiragem impressionante de 50
mil (vezes dez elevado a menos
três) exemplares, no ano da graça de 2004.
Segue aí.
Vindo da Avenida do
Contorno, pelo lado direito, o quarteirão começa na esquina da rua Teixeira
Mendes, segue pela avenida Prudente de Morais até a esquina da rua Acarau,
dobra-se à direita e retoma a Teixeira fechando o polígono na avenida.
Cabelos brancos,
baixinho, pouco mais de metro e meio, Seu Vadinho, 83 anos então, nasceu lá no Pequi.
Mais precisamente no dia 03 de agosto de 1920, leão. Fez a vida no Pará de
Minas, fazendeiro trocando cebola, segundo ele, ao comprar e vender gado. Entrou
no negócio de pneus, quando então se deu bem e se aposentou empresário
comerciante.
Casado com Dona Dária,
companheira desde 1950. Casamento feliz. Mesmo quem não conhece o casal, quando
eles passam lado a lado, sente que há amor na relação que caminha para o
secular. Dois enamorados. Moram na rua Acarau e percorrem diariamente o
quarteirão. Enquanto a esposa precisa de uma bengala para ajudar na caminhada,
Seu Vadinho dispensa, só usa a sua, de bambu envernizado, para ser solidário
com a cara-metade. Coluna vertebral ereta, perpendicular ao chão, saúde
impressionante para a idade, só se queixa um pouco é da memória, que falha de
vez em quando.
Assina o ponto, no
boteco, no mínimo duas vezes por dia, pra tomar a cachacinha pela qual tomou
gosto precoce aos doze anos, menino da roça. Um dia, o pai mandou-lhe tirar
leite de manhãzinha, ameaçando chuva. Choveu. Chegou todo molhado e Joaninha, a
Preta, falou pra ele tomar uma cachacinha que o pai fabricava, pra não pegar um
resfriado.
Vadinho tomou aquela e
nunca mais parou. Às vezes saboreia uma dose, mas já o vi virar cinco seguidas,
devagar, sem cara feia, porque gosta mesmo e não toma qualquer uma. O velho
reconhece que a mulher o transformou, depois que casou melhorou muito sua
maneira de ver a vida e de viver a própria.
Filho médico, que já
cansou de alertar o velho sobre os malefícios do álcool, filha artista
plástica. Pegaram os pais no Interior e trouxeram para a Capital para ficarem
mais perto dos cuidados com a saúde que aumentam com o tempo. Seu Vadinho toma
remédio, mas gosta mesmo é da pinga, e como sempre há contraindicação, deixa o
primeiro em prol da última. Que é sempre a penúltima.
Usa também o rapé, mas
sem conteúdo alucinógeno, só mesmo para espirrar. A latinha traz a marca “Rapé
Imburana”, produzida em Guarani, Zona da Mata de Minas Gerais, pertinho de São
João Nepomuceno, terra natal do autor, meio do caminho do Rio de Janeiro até
Ponte Nova, pela linha do trem que morreu.
Um dia adentra no
recinto uma negra sensacional, metro e oitenta e cinco, toda bem resolvida em
atributos físicos que beiravam a perfeição. O boteco fez aquele silêncio
reverenciando a magnífica prova da existência de Deus e abafa o ruído da
avenida com trânsito infernal. Só volta ao alarido depois que o monumento seca
o refrigerante e vai passear suas qualidades em outras plagas. Aí alguém grita
dizendo que era muita areia pro meu caminhãozinho.
Concordei que não
chegava nem no joelho. E completei dizendo que Seu Vadinho daria conta daquela
paisagem exuberante. O velho deu aquele sorriso maroto, que já tinha sido bom
naquilo, mas já tinha pendurado as chuteiras. Falei que não acreditava, que
fazia fé nele. No fundo eu queria mesmo era levantar a sua bola. Ele só olhou,
sorriu e rebateu: pra quê, seu moço? E o Viagra, Seu Vadinho? Não uso,
respondeu de bate-pronto, pra não despertar as bobagens que ainda tenho na
cabeça e em nome da fidelidade conjugal.
Foi aí que me lembrei de
um desenho do Lan, cartunista companheiro de torcida do Flamengo, italiano
parecido com Seu Vadinho no tamanho e nos cabelos, não na falta de disposição.
Na farmácia, batendo papo com o balconista, os dois azarando uma tremenda
mulata de minissaia, quando o vendedor disse pro Lan que a casa já dispunha do
modelo 36 horas, o baixinho percorreu o panorama, coçou o queixo, franziu as
sobrancelhas e comentou: é pouco...
Seu Vadinho foi o
primeiro e único brasileiro que o pessoal do boteco conheceu que assistiu, ao
vivo, no Maracanã, a trágica final da Copa do Mundo de 1950. A memória falha,
mas não esqueceu o verdadeiro velório em que se transformou a cidade após o
apito final.
Diz o velho que tinha 30
mil réis, o pai arrumou outros 20 mil, e com os 50 mil, boa grana na época, foi
para o Rio de Janeiro. Não pagou ingresso, cortesia de dois amigos que o
convidaram, dando inclusive hospedagem por uma semana.
Quando voltou para o
Pequi, tinha no bolso apenas 2 mil.
E o resto, Seu Vadinho?
Gastei na farra, moço!
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