quinta-feira, 1 de novembro de 2012

EDIÇÃO 7 - ESPECIAL: "Crime Ambiental em BH"



ARTEFATOS

 

Sapo denuncia crime ambiental!
 
  Pelicano morto a tiros!    
 


Já dizia Saramago que a vida depende da morte. Que sem morte não há vida. Não há como não concordar, embora doa.

A dor da morte é mais doída quando o que até agorinha mesmo era um ser, deixa de ser, para ser outra coisa que a gente não sabe bem o que virá a ser. E mais doída ainda quando a morte tem a ver com a gente. Pode ser gente, pode ser diferente, mas dói quando resvala. Coisa também pode ser gente, depende do jeito da gente ver.

A morte de uma flor machuca e deixa triste o jardineiro que plantou.  Cuidou mas não conseguiu impedir que morresse. É assim com todas as coisas que morrem. Com todas as coisas, inclusive as coisas.

Curiosa essa história de se definir a causa da morte. Morria-se de morte matada, morria-se de morte morrida. De amor, de ódio, de febre, de tristeza. Agora está na moda morrer de falência. De falência múltipla dos órgãos.

Toda vida morre por isso. Mesmo que seja de tiro no coração, pois no momento fatal o coração avisa ao cérebro. E o cérebro espalha a notícia, como um serial killer, a todos os demais órgãos, que morrem juntos, de saudade do coração. Dizem que só a alma escapa e sai voando em busca de outro corpo, mas isso é outra história na qual gostaria de acreditar.

Saramago me ajudou a descobrir que a causa da morte é a vida e vice-versa.

Por que Fulano morreu? Morreu porque viveu. Simples. Ponto. Sem exclamação.

Por que uma crônica assim, em plena manhã de domingo, antes das nove horas?

Porque antes de ontem vi de perto duas coisas antes vivas: um morto e um moribundo.


Primeiro vou falar do moribundo, pois ainda não morreu, mas está respirando por aparelhos.

Respirar por aparelhos é um eufemismo que a ciência da medicina utiliza para dizer a coisa tá feia e que é só questão de tempo.

Depois que o Seu Olympio morreu, em 2003, aos 84 anos, a coisa começou a desandar. Olympio Peres Munhoz, espanhol, comunista, desde sempre e para sempre, do naipe de Oscar Niemeyer, José Saramago e alguns outros, trabalhou por mais de 30 anos como garçom da Cantina do Lucas, lá no Edifício Maletta. 

Estabelecimento preferido pelos intelectuais e pelos que se diziam assim, não era importante só por causa disso.

Era importante também por ser onde trabalhava aquele senhor meio rabujento, o que pra mim sempre foi qualidade quando referida aos homens de idade avançada e de bem, que recebeu o título de cidadão honorário de Belo Horizonte em 1996, por iniciativa do então vereador Arnaldo Godoy. Deixou como legado toda uma história, que um dia ainda vai ser contada em sua plenitude e não só por crônicas vagabundas como essa.

Outro personagem marcante da Cantina do Lucas foi o Sapo, jornaleiro de olhos esbugalhados e voz de trovão, anunciando manchetes de tal maneira que se comprava o jornal, mesmo que a matéria não justificasse a ênfase do pregoeiro.

Bar é cultura. A Cantina, com suas garrafas dependuradas de cabeça para baixo, ameaçando cair sobre a clientela, o que nunca ocorreu, foi tombada como “bem cultural” em 1997.

Pois bem, na Avenida Augusto de Lima, nº 233, nas lojas 18 e 19, à esquerda de quem sobe a rampa, ainda funciona o que restou da Cantina do Lucas, infelizmente moribunda. Causa mortis do que virá? Falência múltipla dos órgãos vitais: comida apenas razoável, cerveja nem tanto assim gelada, serviço não mais do que burocrático. Fim do encanto.



Agora vou falar do morto.

Do morto que morreu. Pertinho da Cantina do Lucas, o bar Pelicano, também na Augusto de Lima. Não sei se de morte morrida, pois havia tempo estava meio moribundo.  De morte matada, sim, em cruel final. Assassinado com uma saraivada de balas. Desferidas por um matador profissional: o Bang Bang Burger, lanchonete que tomou o seu lugar. Triste fim. Um verdadeiro crime ambiental.

Belo Horizonte, 19 de Dezembro de 2010.
(Do livro "Mexido com Salada", a ser publicado quando Deus quiser). 

Paulinho Pavaneli.

Um comentário:

  1. Quando começarem a perceber que a questão ambiental está dentro de cada um talvez seja tarde demais. Suas idéias não podem perder o acento grave e o agudo se for necessário.

    ResponderExcluir