ARTEFATOS
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Sapo denuncia crime ambiental!
Pelicano morto a tiros!
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Já dizia
Saramago que a vida depende da morte. Que sem morte não há vida. Não há como
não concordar, embora doa.
A dor da morte
é mais doída quando o que até agorinha mesmo era um ser, deixa de ser, para ser
outra coisa que a gente não sabe bem o que virá a ser. E mais doída ainda
quando a morte tem a ver com a gente. Pode ser gente, pode ser diferente, mas
dói quando resvala. Coisa também pode ser gente, depende do jeito da gente ver.
A morte de uma
flor machuca e deixa triste o jardineiro que plantou. Cuidou mas não conseguiu impedir que
morresse. É assim com todas as coisas que morrem. Com todas as coisas,
inclusive as coisas.
Curiosa essa
história de se definir a causa da morte. Morria-se de morte matada, morria-se
de morte morrida. De amor, de ódio, de febre, de tristeza. Agora está na moda
morrer de falência. De falência múltipla dos órgãos.
Toda vida
morre por isso. Mesmo que seja de tiro no coração, pois no momento fatal o
coração avisa ao cérebro. E o cérebro espalha a notícia, como um serial killer, a todos os demais órgãos,
que morrem juntos, de saudade do coração. Dizem que só a alma escapa e sai
voando em busca de outro corpo, mas isso é outra história na qual gostaria de
acreditar.
Saramago me
ajudou a descobrir que a causa da morte é a vida e vice-versa.
Por que Fulano
morreu? Morreu porque viveu. Simples. Ponto. Sem exclamação.
Por que uma
crônica assim, em plena manhã de domingo, antes das nove horas?
Porque antes
de ontem vi de perto duas coisas antes vivas: um morto e um moribundo.
Primeiro vou
falar do moribundo, pois ainda não morreu, mas está respirando por aparelhos.
Respirar por
aparelhos é um eufemismo que a ciência da medicina utiliza para dizer a coisa
tá feia e que é só questão de tempo.
Depois que
o Seu Olympio morreu, em 2003, aos 84 anos, a coisa começou a desandar. Olympio Peres Munhoz, espanhol, comunista, desde sempre e
para sempre, do naipe de Oscar Niemeyer, José Saramago e alguns outros,
trabalhou por mais de 30 anos como garçom da Cantina do Lucas, lá no Edifício
Maletta.
Estabelecimento
preferido pelos intelectuais e pelos que se diziam assim, não era
importante só por causa disso.
Era
importante também por ser onde trabalhava aquele senhor meio rabujento, o que pra mim sempre foi qualidade quando
referida aos homens de idade avançada e de bem, que recebeu o título de cidadão
honorário de Belo Horizonte em 1996, por iniciativa do então vereador Arnaldo
Godoy. Deixou como legado toda uma história, que um dia ainda vai ser contada
em sua plenitude e não só por crônicas vagabundas como essa.
Outro
personagem marcante da Cantina do Lucas foi o Sapo, jornaleiro de olhos
esbugalhados e voz de trovão, anunciando manchetes de tal maneira que se
comprava o jornal, mesmo que a matéria não justificasse a ênfase do pregoeiro.
Bar é cultura.
A Cantina, com suas garrafas dependuradas de cabeça para baixo, ameaçando cair
sobre a clientela, o que nunca ocorreu, foi tombada como “bem cultural” em
1997.
Pois
bem, na Avenida Augusto de Lima, nº 233, nas lojas 18 e 19, à esquerda de quem
sobe a rampa, ainda funciona o que restou da Cantina do Lucas, infelizmente
moribunda. Causa mortis do que virá? Falência múltipla dos órgãos vitais:
comida apenas razoável, cerveja nem tanto assim gelada, serviço não mais do que
burocrático. Fim do encanto.
Agora
vou falar do morto.
Do
morto que morreu. Pertinho da Cantina do Lucas, o bar Pelicano, também na
Augusto de Lima. Não sei se de morte morrida, pois havia tempo estava meio
moribundo. De morte matada, sim, em
cruel final. Assassinado com uma saraivada de balas. Desferidas por um matador
profissional: o Bang Bang Burger, lanchonete que tomou o seu lugar. Triste fim.
Um verdadeiro crime ambiental.
Belo Horizonte, 19 de Dezembro de 2010.
(Do livro "Mexido com Salada", a ser publicado quando Deus quiser).
Paulinho Pavaneli.
Quando começarem a perceber que a questão ambiental está dentro de cada um talvez seja tarde demais. Suas idéias não podem perder o acento grave e o agudo se for necessário.
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