ABRINDO O BAÚ
Os leitores que acompanham este Pau Comeu já se depararam
várias vezes com a crítica que o autor devota a essa tal de Reforma
Ortográfica. Inúmeras vezes coloca a palavra tranqüilo (com trema, revisão!)
querendo dizer que se sente “trankuilo” e não “trankilo”.
A presente edição, nesse dia 07/Fevereiro/2013, é dedicada ao tema, sob a forma de quase
MANIFESTO.
No princípio achei que era quase birra, mas...
Estava eu posto em sossego quando trombei, nesse engarrafado trânsito
literário, com opiniões concordantes, porém mais abalizadas.
Dá um time de futebol de salão (futsal para os idiotas
modernosos), no qual sou reserva assumido e orgulhoso. Entre os que jogam no
meu time, escalo: José Saramago, Pasquale Cipro Neto, Cláudio Moreno, Sérgio
Nogueira e Ruy Castro.
(1)Goleiro
O escritor José Saramago, único Nobel na língua de Camões,
dizia, aos 85 anos, que já não tinha paciência para recorrer constantemente ao
dicionário e nem para regressar aos bancos da escola primária:
“(...) Aprendi a
escrever a palavra mãe com “e” no final, depois veio uma reforma gráfica e
passei a escrever com “i” final. Depois veio outra e passei a escrever com “e”
novamente. Agora estamos em algo mais vasto e complexo que não me agrada
completamente. Nestas matérias sou bastante conservador: o que está e deu bons
frutos e bons resultados não se mexe. Há aí um grupo de pessoas que respeito
muito que não estão de acordo comigo. Mas creio que temos de embarcar nesse
comboio mesmo que não gostemos muito. Não há outro remédio. Vou continuar a
escrever como escrevo hoje (...)”
(2) Beque-Central
O conceituado professor de português Pasquale Cipro Neto
dispara:
“(...) Sou contra o
acordo. Sei que isso é um tiro no próprio pé, pois, se o acordo passar, vou ser
chamado para fazer muitas palestras. Mas não quero esse dinheiro, não. Com
outro espírito, outra proposta, uma unificação talvez fosse possível. Mas esta
é uma reforma meia-sola, que não unifica a escrita de fato e mexe mal em pontos
como o acento diferencial. Vamos enterrar dinheiro em uma mudança que não trará
efeitos positivos.”
(3) Ala-Ponta-Direita
Cláudio Moreno, professor, simplifica:
“(...) Essa ideia
messiânica, utópica de que a unificação vai transformar o português em uma
língua de relações internacionais é uma tolice”.
(4) Centro-Avante
Sérgio Nogueira, professor, considera, irônico:
“(...) Se a reforma
sair, vou ficar rico de tanta palestra que vou dar.”
(5) Ala- Ponta-Esquerda
Ruy Castro, estudioso de Garrincha, Carmem Miranda e Bossa
Nova, entre outros temas da maior relevância para a História da Cultura Brasileira,
rebelde em relação às mudanças na grafia do idioma, proclama:
“(...) Continuarei a
escrever pingüim, a comer lingüiça, e a cantar – O pato vinha cantando
alegremente Qüem qüem...(...)”
Não foi à toa que escalei Ruy Castro para completar esse time
de cobras criadas. Meses antes da Famigerada Reforma, apavorado com a
extirpação (u) do trema (ü), o locutor que vos fala escrevia a seguinte letra
de um samba em estilo bossa nova, que ganhou melodia competente da amiga e
ex-crooner da náite belorizontina, Regina Preta, e que vai, na íntegra, para
fechar essa discussão sobre tema pelo qual manifesto minha mais profunda repugnância.
Em medicina, extirpar significa extrair cirurgicamente... Operar.
Aproveito a efeméride para homenagear o bloco carnavalesco
“Trema na Lingüiça”, de Belo Horizonte, que incorporou o espírito da coisa...
ARTEFATO
DJ, coloca pra rodar aquele samba denominado “Patologia”, no qual qüem
é kuen e quem
é ken...
qüém... qüém... qüém... qüem
tudo bem...
qüém... qüém... qüém... qüem
tudo bem...
qüém... qüém... qüém... qüém
O
pato...
ga-ga-gue-jan-do
tristemente
quem... quem...
quem
foi
o filólogo demente
que
tirou o meu
qüém...
qüém ... qüém?
O
ganso...
também
caiu na armadilha
o
esse virou ce cedilha
perdeu
a ginga e reclamou
já
nem çei mais quem eu çou...
quem... qüem... quem... qüem
ju – ru – ru
quem... qüem... quem... qüem
ju – ru – ru
quem... qüem... quem...
O
pato... foi parar
no
Hospital da Lagoa
submetido
a uma operação...
quase
morreu... de tanta vergonha
perdeu
dois pontos do seu “u”!
Ele
que vivia
bem
tranqüilamente
se
transformou num cara tão carente
hoje
ele saltita tão diferente
quando
vai do Leme até Bangu!
Patinho feio... andar banal...
voa sem jeito... nada tão mal...
sua família não foi legal
abandonou o animal...
O tal filólogo tirou o resto
do resto que lhe restou
ele falava como ninguém
a língua do qüém qüém
qüém...
qüém...
qüém... qüém... qüem
tudo
bem
quem... qüem... quem...
qüem
ju
– ru – ru
quem... quem... quem... quem
calou
o pato?
Aposto que você, caro
leitor, conhece a voz do pato antes da reforma, claro, mas não sabia quem fez
letra e melodia.
Pensa que é do João
Gilberto. Não é... A quem (sem trema) sabe, minhas desculpas...
Os autores são... Jayme
Silva e Neusa Teixeira.
Sim, foram eles que deram
voz ao pato, que vinha cantando alegremente... Antes da famigerada reforma
ortográfica.
POLITICANALHAGEM
Aquele marimbondo de fogo tinha que ter algo a ver com essa sacanagem.
Foi o que o colunista
Clóvis da Holt, do jornal Zero Hora de Porto Alegre, em seu primeiro artigo de
2009, entregou:
“(...) sinto-me tomado por uma indecisão: devo escrever como o Sarney
quer que eu escreva? Para os desavisados, não custa lembrar que estão em vigor
as novas regras de ortografia para os países que falam a língua portuguesa, o
que inclui o Brasil. O feito é resultado das maquinações cerebrais de ninguém
menos que José Sarney, que, desde a década de 1990, vinha tentando emplacar a
adesão do Brasil à reforma ortográfica.”
Prossegue:
“(...) Palavras como “idéia” e “azaléia”, desde o primeiro dia do ano
de 2009, perderam o acento agudo e passaram a ser grafadas “ideia” e “azaleia”.
Mas e as palvras “meia” e “aldeia” – dirão alguns - , que nunca tiveram acento?
Ora,
elas continuarão sem acento, só não sei que mágica os professores farão para
ensinar a uma criança que está sendo alfabetizada que “ideia” e “aldeia”,
embora se pareçam na grafia, distinguem-se
na sonoridade pela pronúncia, já que era o acento que cumpria essa função
distintiva (...)”
A finalização é uma punhalada cirúrgica no peito do boçal imbecil:
“(...) No âmbito da
patuscada legalista, uma coisa é certa. Os leitores brasileiros, portugueses e
africanos podem ficar sossegados, pois os livros de José Sarney (que também é
escritor – pasmem!) não serão encontrados em nenhuma livraria em edições
comemorativas ao novo acordo ortográfico. Isso porque sua obra é tão
irrelevante para a cultura nacional, que continuará eternamente empoeirada em
meio aos tremas e acentos que ele tanto detesta. O máximo que seu intelecto
renderá é um busto no átrio das personalidades mais descartáveis da história
brasileira (...)”
Tinha que acontecer também de alguém morder e assoprar nesta
matéria. Exemplo vivo de quem piorou depois que parou de beber. Infelizmente
foi o João Ubaldo Ribeiro, em cujo passado, brilhante, foi autor de um dos mais
saborosos e importantes livros em nossa língua: “Viva o Povo Brasileiro”.
Atualmente não passa de um imortal que divide crônicas em companhia do também
imortal Merval Pereira, esse de quinta categoria, que, ao contrário do colega, não escreveu
nada de importante.
Então JUR cabe bem nesse...
BOOMERANG
>>>>>>> ”Encaro com grande ceticismo esse acordo ortográfico. É uma reforma
tímida, que não traz grandes inovações. Mas não gostei. Queria que meus tremas
ficassem onde estão. Os escritores mais velhos e mais preguiçosos têm de
confiar no pessoal da editoração para fazer as mudanças necessárias no texto.”
João Ubaldo Ribeiro, na época.
<<<<<<< Isso é que é ter uma opinião
firme... Exatamente em cima e no meio do muro.
Pau Comeu, enchendo lingüiça.
ESPORTES
(1) E foi inaugurado o novo Mineirão, que
virou Arena, por coincidência o Partido da Ditadura, para gáudio do triunvirato
João Leite, Aécio Neves e Antonio Anastasia (ver edição anterior). Pelo que
disse até a grande imprensa, o estádio do Estado Azul-Amarelo revelou-se
bonitinho, mas ordinário...
(2) A evolução do palavreado
futebolístico às vezes prega peças nos torcedores de pijama. Lá se foi o tempo
em que a gente chamava jogador ruim de pereba, perna-de-pau e droga, para
separá-los do craque (crack). Pois
bem, parece que as coisas pioraram, pois crack
virou droga.
(3) Ler colunista inteligente é um
bálsamo. Cada vez mais raros, usufruir tais oportunidades faz um enorme bem a
nós, ávidos leitores em busca da qualidade em meio a tanta estupidez. É o caso
do Tostão, no jornal “O Tempo”, que não joga conversa fora. Por exemplo, na
coluna do dia 03-02 (domingo), saiu-se com esta pérola, sobre a CBF dos
senhores Marin, Del Nero e Teixeira (sim, esse corrupto ainda recebe uma grana
pra curtir no exílio em Boca Raton,
que nome perfeito!...):
“(...)Pior,
contratam Bebeto para diretor-técnico, sem nenhum preparo para o cargo. Além disso, Bebeto é deputado
estadual pelo Rio, membro do comitê
da Copa, embaixador do Mundial, sempre com um sorriso de submissão ao poder.”
Realmente, é muito cargo para uma
pessoa tão insignificante e inexpressiva...
PRÓXIMA EDIÇÃO
Pau Comeu dedicará a edição nº 26 ao candente tema do “bullying”.
Na língua pátria deles “bullying is aggressive physical contact, words or
actions to cause another person injury or discomfort”. Or “bullying is the use
of force or coercion to abuse or intimidate others. The behavior can be
habitual and involve an imbalance of social or physical power.”
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