quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

EDIÇÃO Nº 25: A REFORMA IDIOTA


 
ABRINDO O BAÚ

Os leitores que acompanham este Pau Comeu já se depararam várias vezes com a crítica que o autor devota a essa tal de Reforma Ortográfica. Inúmeras vezes coloca a palavra tranqüilo (com trema, revisão!) querendo dizer que se sente “trankuilo” e não “trankilo”.
A presente edição, nesse dia  07/Fevereiro/2013, é dedicada ao tema, sob a forma de quase MANIFESTO.
No princípio achei que era quase birra, mas...
Estava eu posto em sossego quando trombei, nesse engarrafado trânsito literário, com opiniões concordantes, porém mais abalizadas.
Dá um time de futebol de salão (futsal para os idiotas modernosos), no qual sou reserva assumido e orgulhoso. Entre os que jogam no meu time, escalo: José Saramago, Pasquale Cipro Neto, Cláudio Moreno, Sérgio Nogueira e Ruy Castro.

(1)Goleiro

O escritor José Saramago, único Nobel na língua de Camões, dizia, aos 85 anos, que já não tinha paciência para recorrer constantemente ao dicionário e nem para regressar aos bancos da escola primária:

“(...) Aprendi a escrever a palavra mãe com “e” no final, depois veio uma reforma gráfica e passei a escrever com “i” final. Depois veio outra e passei a escrever com “e” novamente. Agora estamos em algo mais vasto e complexo que não me agrada completamente. Nestas matérias sou bastante conservador: o que está e deu bons frutos e bons resultados não se mexe. Há aí um grupo de pessoas que respeito muito que não estão de acordo comigo. Mas creio que temos de embarcar nesse comboio mesmo que não gostemos muito. Não há outro remédio. Vou continuar a escrever como escrevo hoje (...)”

(2) Beque-Central

O conceituado professor de português Pasquale Cipro Neto dispara:

“(...) Sou contra o acordo. Sei que isso é um tiro no próprio pé, pois, se o acordo passar, vou ser chamado para fazer muitas palestras. Mas não quero esse dinheiro, não. Com outro espírito, outra proposta, uma unificação talvez fosse possível. Mas esta é uma reforma meia-sola, que não unifica a escrita de fato e mexe mal em pontos como o acento diferencial. Vamos enterrar dinheiro em uma mudança que não trará efeitos positivos.”

(3) Ala-Ponta-Direita

Cláudio Moreno, professor, simplifica:

“(...) Essa ideia messiânica, utópica de que a unificação vai transformar o português em uma língua de relações internacionais é uma tolice”.

(4) Centro-Avante

Sérgio Nogueira, professor, considera, irônico:

“(...) Se a reforma sair, vou ficar rico de tanta palestra que vou dar.”

(5) Ala- Ponta-Esquerda

Ruy Castro, estudioso de Garrincha, Carmem Miranda e Bossa Nova, entre outros temas da maior relevância para a História da Cultura Brasileira, rebelde em relação às mudanças na grafia do idioma, proclama:

“(...) Continuarei a escrever pingüim, a comer lingüiça, e a cantar – O pato vinha cantando alegremente Qüem qüem...(...)”

Não foi à toa que escalei Ruy Castro para completar esse time de cobras criadas. Meses antes da Famigerada Reforma, apavorado com a extirpação (u) do trema (ü), o locutor que vos fala escrevia a seguinte letra de um samba em estilo bossa nova, que ganhou melodia competente da amiga e ex-crooner da náite belorizontina, Regina Preta, e que vai, na íntegra, para fechar essa discussão sobre tema pelo qual manifesto minha mais profunda repugnância. Em medicina, extirpar significa extrair cirurgicamente... Operar.

Aproveito a efeméride para homenagear o bloco carnavalesco “Trema na Lingüiça”, de Belo Horizonte, que incorporou o espírito da coisa...

 

ARTEFATO

DJ, coloca pra rodar aquele samba denominado “Patologia”, no qual qüem é kuen e quem é ken...

 

qüém... qüém... qüém... qüem

tudo bem...

qüém... qüém... qüém... qüem

tudo bem...

qüém... qüém... qüém... qüém

 

            O pato...

            ga-ga-gue-jan-do tristemente

            quem... quem... quem

            foi o filólogo demente

            que tirou o meu

            qüém... qüém ... qüém?

            O ganso...

            também caiu na armadilha

            o esse virou ce cedilha

            perdeu a ginga e reclamou

            já nem çei mais quem eu çou...

 

quem... qüem... quem... qüem

ju – ru – ru

quem... qüem... quem... qüem

ju – ru – ru

quem... qüem... quem...

 

            O pato...  foi parar

            no Hospital da Lagoa

            submetido a uma operação...

            quase morreu... de tanta vergonha

            perdeu dois pontos do seu “u”!

            Ele que vivia

            bem tranqüilamente

            se transformou num cara tão carente

            hoje ele saltita tão diferente

            quando vai do Leme até Bangu!

 

Patinho feio... andar banal...

voa sem jeito... nada tão mal...

sua família não foi legal

abandonou o animal...

O tal filólogo tirou o resto

do resto que lhe restou

ele falava como ninguém

a língua do qüém qüém qüém...

 

 

            qüém... qüém... qüém... qüem

            tudo bem

            quem... qüem... quem... qüem

            ju – ru – ru

            quem... quem... quem... quem

            calou o pato?

 

Aposto que você, caro leitor, conhece a voz do pato antes da reforma, claro, mas não sabia quem fez letra e melodia.

Pensa que é do João Gilberto. Não é... A quem (sem trema) sabe, minhas desculpas...

Os autores são... Jayme Silva e Neusa Teixeira.

Sim, foram eles que deram voz ao pato, que vinha cantando alegremente... Antes da famigerada reforma ortográfica.

 
POLITICANALHAGEM

Aquele marimbondo de fogo tinha que ter algo a ver com essa sacanagem.

Foi o que o colunista Clóvis da Holt, do jornal Zero Hora de Porto Alegre, em seu primeiro artigo de 2009, entregou:

“(...) sinto-me tomado por uma indecisão: devo escrever como o Sarney quer que eu escreva? Para os desavisados, não custa lembrar que estão em vigor as novas regras de ortografia para os países que falam a língua portuguesa, o que inclui o Brasil. O feito é resultado das maquinações cerebrais de ninguém menos que José Sarney, que, desde a década de 1990, vinha tentando emplacar a adesão do Brasil à reforma ortográfica.”

Prossegue:

“(...) Palavras como “idéia” e “azaléia”, desde o primeiro dia do ano de 2009, perderam o acento agudo e passaram a ser grafadas “ideia” e “azaleia”. Mas e as palvras “meia” e “aldeia” – dirão alguns - , que nunca tiveram acento? Ora, elas continuarão sem acento, só não sei que mágica os professores farão para ensinar a uma criança que está sendo alfabetizada que “ideia” e “aldeia”, embora se pareçam na grafia, distinguem-se  na sonoridade pela pronúncia, já que era o acento que cumpria essa função distintiva (...)”

A finalização é uma punhalada cirúrgica no peito do boçal imbecil:

“(...) No âmbito da patuscada legalista, uma coisa é certa. Os leitores brasileiros, portugueses e africanos podem ficar sossegados, pois os livros de José Sarney (que também é escritor – pasmem!) não serão encontrados em nenhuma livraria em edições comemorativas ao novo acordo ortográfico. Isso porque sua obra é tão irrelevante para a cultura nacional, que continuará eternamente empoeirada em meio aos tremas e acentos que ele tanto detesta. O máximo que seu intelecto renderá é um busto no átrio das personalidades mais descartáveis da história brasileira (...)”

Tinha que acontecer também de alguém morder e assoprar nesta matéria. Exemplo vivo de quem piorou depois que parou de beber. Infelizmente foi o João Ubaldo Ribeiro, em cujo passado, brilhante, foi autor de um dos mais saborosos e importantes livros em nossa língua: “Viva o Povo Brasileiro”. Atualmente não passa de um imortal que divide crônicas em companhia do também imortal Merval Pereira, esse de quinta categoria, que, ao contrário do colega, não escreveu nada de importante.

Então JUR cabe bem nesse...


BOOMERANG

>>>>>>> ”Encaro com grande ceticismo esse acordo ortográfico. É uma reforma tímida, que não traz grandes inovações. Mas não gostei. Queria que meus tremas ficassem onde estão. Os escritores mais velhos e mais preguiçosos têm de confiar no pessoal da editoração para fazer as mudanças necessárias no texto.”

João Ubaldo Ribeiro, na época.

<<<<<<< Isso é que é ter uma opinião firme... Exatamente em cima e no meio do muro.

Pau Comeu, enchendo lingüiça.

ESPORTES

(1)   E foi inaugurado o novo Mineirão, que virou Arena, por coincidência o Partido da Ditadura, para gáudio do triunvirato João Leite, Aécio Neves e Antonio Anastasia (ver edição anterior). Pelo que disse até a grande imprensa, o estádio do Estado Azul-Amarelo revelou-se bonitinho, mas ordinário...
       Não entrando em outros detalhes, Pau Comeu envia, como presente de renascimento, 7 rolos de papel higiênico, 7 latinhas de cerveja e 7 pratos de tropeirão que, ao que informmam, não compareceram à inauguração. Água? Não choveu. Aguardamos a seguir o mico do Maracanã... Cabe o bordão: "Imagina na Copa".

(2)   A evolução do palavreado futebolístico às vezes prega peças nos torcedores de pijama. Lá se foi o tempo em que a gente chamava jogador ruim de pereba, perna-de-pau e droga, para separá-los do craque (crack). Pois bem, parece que as coisas pioraram, pois crack virou droga.

(3)   Ler colunista inteligente é um bálsamo. Cada vez mais raros, usufruir tais oportunidades faz um enorme bem a nós, ávidos leitores em busca da qualidade em meio a tanta estupidez. É o caso do Tostão, no jornal “O Tempo”, que não joga conversa fora. Por exemplo, na coluna do dia 03-02 (domingo), saiu-se com esta pérola, sobre a CBF dos senhores Marin, Del Nero e Teixeira (sim, esse corrupto ainda recebe uma grana pra curtir no exílio em Boca Raton, que nome perfeito!...):

“(...)Pior, contratam Bebeto para diretor-técnico, sem nenhum preparo para o cargo. Além disso, Bebeto é deputado estadual pelo Rio, membro do comitê da Copa, embaixador do Mundial, sempre com um sorriso de submissão ao poder.”

Realmente, é muito cargo para uma pessoa tão insignificante e inexpressiva...

 

PRÓXIMA EDIÇÃO

Pau Comeu dedicará a edição nº 26 ao candente tema do “bullying”.

Na língua pátria deles “bullying is aggressive physical contact, words or actions to cause another person injury or discomfort”. Or “bullying is the use of force or coercion to abuse or intimidate others. The behavior can be habitual and involve an imbalance of social or physical power.”

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