terça-feira, 25 de agosto de 2015

EDIÇÃO Nº 131: POLÍCIA- LADRÃO-JORNALISTA










O Autor relembra um artigo de Luis Fernando Veríssimo, uma parábola sobre a justicinha brasileirinha, e deseja bom final de Agosto para todos os brasileiros, sem suicídios nem renúncias...


E que o Galeão continue aeroporto e não vire república...
 
25-08-2015



 ADAMASTOR E NICANOR


Era uma vez um lugar maravilhoso em que, numa dada época, muito tempo atrás, as crianças, em sua inocência, brincavam de polícia e ladrão...

Adamastor de Almeida Matusalém, mais experiente, ia ensinando ao recém-chegado amigo Nicanor Vandirlei Neném as artes da vida, as mutretas do lugar, o palavreado que o pessoal usava para se comunicar sem “o estrangeiro” perceber as sacanagens, e no papo rolaram as coisas, as manias, os nomes, as paradas daquele Norte.

Foi quando resgatou, no boteco do Itagiba, do fundo do baú da filosofia da esquina, uma pérola sobre uma conversa fiada que o pessoal chamava de “papo de ladrão pra delegado”, e que era mais ou menos o seguinte, o cara era pego no flagrante delito e conseguia sair de fininho, naquela malemolência de dizer ora, doutor, não foi bem assim, etc e tal, e no fim estava livre para continuar na sua usina de mutretação, que ninguém é de ferro, as crianças têm a mania de comer todo dia, a patroa precisava de um trato na cabeleireira, afinal se arrumar pra quando o maridão, ele próprio, chegasse do trabalho, do trampo, da obrigação de cada dia que virou sina e que deu certo, o que nuca tinha conseguido antes na vida quando tentara a carreira de pagodeiro de quinta, de culinário de churrasquinho de gato,  de auxiliar de corretor zoológico...

Neném era mais chegado às coisas do tal de Sul, ex-Maravilha, tirava onda de bem informado, sacou da sacola um artigo de um cara famoso por lá, Luís Fernando Veríssimo, escritor que nem o pai Érico, gaúchos ambos, do Sul mesmo.

E o artigo até que tinha papel no enredo daquela conversa, olha só o nome: “O Brasil explicado em galinhas...”. Quando Matusa leu, concordou que era mesmo papo de ladrão pra delegado, pensava que só ele sabia daquelas mumunhas, que nada, aquilo era uma espécie de mania nacional...

O problema era que a descrição era num estilo saramaguiano, quase não tinha ponto, tinha muita vírgula, o leitor tinha que parar de vez em quando para respirar um pouco.

Negócio seguinte, entre aspas... Com letras vermelhas para o ladrão, e azuis pro delegado, pra facilitar...


Pegaram o cara em flagrante roubando galinhas de um galinheiro e o levaram para a delegacia, Que vida mansa, heim, vagabundo, Roubando galinha para ter o que comer sem precisar trabalhar, Vai pra cadeia, Não era pra mim, não, era pra vender, Pior, venda de artigo roubado, concorrência desleal com o comércio estabelecido, Sem-vergonha! Mas eu vendia mais caro... Mais caro? Espalhei o boato que as galinhas do galinheiro eram bichadas e as minhas galinhas não, E que as do galinheiro botavam ovos brancos enquanto as minhas botavam ovos marrons, Mas eram as mesmas galinhas, safado... Os ovos da minha eu pintava, Que grande pilantra! Mas já havia um certo respeito no tom do delegado... Ainda bem que tu vai preso, se o dono do galinheiro te pega...Já me pegou! Fiz um acerto com ele, me comprometi a não espalhar mais boato sobre as galinhas dele, e ele se comprometeu a aumentar os preços dos produtos dele para ficarem iguais aos meus. Convidamos outros donos de galinheiros a entrar no nosso esquema, formamos um ovigopólio.E o que você faz com o lucro do seu negócio? Especulo com o dólar, invisto alguma coisa no tráfico de drogas, comprei alguns deputados, dois ou três ministros, Consegui exclusividade no suprimento de galinhas e ovos para programas de alimentação do governo e superfaturo os preços.”
O delegado mandou pedir um cafezinho para o preso e perguntou se a cadeira estava confortável, se ele não queria uma almofada, depois perguntou: Doutor, não me leve a mal, mas com tudo isso, o senhor não está milionário? Trilionário, sem contar o que eu sonego de Imposto de Renda e o que tenho depositado ilegalmente no exterior. E, com tudo isso, o senhor continua roubando galinhas? Às vezes, sabe como é... Não sei, não, excelência, me explique. É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto falta de uma coisa... o risco, entende? Daquela sensção de perigo, de estar fazendo alguma coisa proibida, da iminência do castigo. Só roubando galinhas eu me sinto realmente um ladrão, e isso é excitante! Como agora fui preso, finalmente vou para a cadeia. É uma experiência nova. O que é isso, Excelência? O senhor não vai preso, não... Mas fui pego em flagrante pulando a cerca do galinheiro! Sim, mas primário, e com esses antecedentes...”

Só no finalzinho é que Adamastor Matusalém e Nicanor Neném perceberam que o papo começou de ladrão pra delegado e virou de delegado pra ladrão... 

Merdeval di Moro Barbueza Cuña y Perera, um famoso jornalista-falso-moralista do lugar, execrado por gregos e bahianos, sacaneado por maranhenses e paraibanos, esculachado por amazonenses e pernambucanos, do alto do seu cinismo acadêmico-platinado, intrometeu-se na conversa sem ser chamado e proferiu a sentença magistral: é preciso subir a escada, até seu degrau mais alto, e a partir daí começar a faxina, pois escada suja tem que ser varrida de cima para baixo, e ainda bem que eu moro no porão... 
 
Foi então que o dono do boteco, Itagiba, gaúcho lá de Carazinho, passando um pano molhado na mesa, murmurou: sou do tempo em que polícia era polícia, ladrão era ladrão e jornalista era jornalista...


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