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O Autor
relembra um artigo de Luis Fernando Veríssimo, uma parábola sobre a
justicinha brasileirinha, e deseja bom final de Agosto para todos os
brasileiros, sem suicídios nem renúncias...
E que o Galeão continue aeroporto
e não vire república...
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25-08-2015
ADAMASTOR E NICANOR
Era uma vez
um lugar maravilhoso em que, numa dada época, muito tempo atrás, as crianças,
em sua inocência, brincavam de polícia e ladrão...
Adamastor de
Almeida Matusalém, mais experiente, ia ensinando ao recém-chegado amigo Nicanor
Vandirlei Neném as artes da vida, as mutretas do lugar, o palavreado que o pessoal
usava para se comunicar sem “o estrangeiro” perceber as sacanagens, e no papo
rolaram as coisas, as manias, os nomes, as paradas daquele Norte.
Foi quando
resgatou, no boteco do Itagiba, do fundo do baú da filosofia da esquina, uma
pérola sobre uma conversa fiada que o pessoal chamava de “papo de ladrão pra
delegado”, e que era mais ou menos o seguinte, o cara era pego no flagrante
delito e conseguia sair de fininho, naquela malemolência de dizer ora, doutor,
não foi bem assim, etc e tal, e no fim estava livre para continuar na sua usina
de mutretação, que ninguém é de ferro, as crianças têm a mania de comer todo
dia, a patroa precisava de um trato na cabeleireira, afinal se arrumar pra
quando o maridão, ele próprio, chegasse do trabalho, do trampo, da obrigação de
cada dia que virou sina e que deu certo, o que nuca tinha conseguido antes na
vida quando tentara a carreira de pagodeiro de quinta, de culinário de
churrasquinho de gato, de auxiliar de corretor
zoológico...
Neném era
mais chegado às coisas do tal de Sul, ex-Maravilha, tirava onda de bem
informado, sacou da sacola um artigo de um cara famoso por lá, Luís Fernando
Veríssimo, escritor que nem o pai Érico, gaúchos ambos, do Sul mesmo.
E o artigo
até que tinha papel no enredo daquela conversa, olha só o nome: “O Brasil
explicado em galinhas...”. Quando Matusa leu, concordou que era mesmo papo de
ladrão pra delegado, pensava que só ele sabia daquelas mumunhas, que nada,
aquilo era uma espécie de mania nacional...
O problema
era que a descrição era num estilo saramaguiano, quase não tinha ponto, tinha
muita vírgula, o leitor tinha que parar de vez em quando para respirar um
pouco.
Negócio
seguinte, entre aspas... Com letras vermelhas para o
ladrão, e azuis pro delegado, pra
facilitar...
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“Pegaram o cara em flagrante roubando
galinhas de um galinheiro e o levaram para a delegacia, Que vida mansa, heim, vagabundo, Roubando
galinha para ter o que comer sem precisar trabalhar, Vai pra cadeia,
Não era pra mim, não, era pra vender, Pior, venda
de artigo roubado, concorrência desleal com o comércio estabelecido,
Sem-vergonha! Mas eu vendia mais caro... Mais caro?
Espalhei o boato que as galinhas do
galinheiro eram bichadas e as minhas galinhas não, E que as do galinheiro
botavam ovos brancos enquanto as minhas botavam ovos marrons, Mas eram as
mesmas galinhas, safado... Os ovos da
minha eu pintava, Que grande pilantra! Mas já havia um certo respeito no tom
do delegado... Ainda bem que tu vai preso, se o dono do galinheiro te pega...Já me pegou! Fiz um acerto com ele, me comprometi a não
espalhar mais boato sobre as galinhas dele, e ele se comprometeu a aumentar
os preços dos produtos dele para ficarem iguais aos meus. Convidamos outros
donos de galinheiros a entrar no nosso esquema, formamos um ovigopólio.E o que você
faz com o lucro do seu negócio? Especulo
com o dólar, invisto alguma coisa no tráfico de drogas, comprei alguns
deputados, dois ou três ministros, Consegui exclusividade no suprimento de
galinhas e ovos para programas de alimentação do governo e superfaturo os
preços.”
O delegado mandou pedir um
cafezinho para o preso e perguntou se a cadeira estava confortável, se ele
não queria uma almofada, depois perguntou: Doutor, não me leve a mal, mas com tudo
isso, o senhor não está milionário? Trilionário,
sem contar o que eu sonego de Imposto de Renda e o que tenho depositado
ilegalmente no exterior. E, com tudo isso, o senhor continua roubando galinhas? Às vezes, sabe como é... Não sei, não, excelência, me explique. É que, em todas essas
minhas atividades, eu sinto falta de uma coisa... o risco, entende? Daquela
sensção de perigo, de estar fazendo alguma coisa proibida, da iminência do
castigo. Só roubando galinhas eu me sinto realmente um ladrão, e isso é
excitante! Como agora fui preso, finalmente vou para a cadeia. É uma
experiência nova. O que é isso, Excelência? O senhor não vai preso,
não... Mas
fui pego em flagrante pulando a cerca do galinheiro! Sim, mas
primário, e com esses antecedentes...”
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Só no
finalzinho é que Adamastor Matusalém e Nicanor Neném perceberam que o papo
começou de ladrão pra delegado e virou de delegado pra ladrão...
Merdeval di
Moro Barbueza Cuña y Perera, um famoso jornalista-falso-moralista do lugar, execrado
por gregos e bahianos, sacaneado por maranhenses e paraibanos, esculachado por
amazonenses e pernambucanos, do alto do seu cinismo acadêmico-platinado, intrometeu-se
na conversa sem ser chamado e proferiu a sentença magistral: é preciso subir a
escada, até seu degrau mais alto, e a partir daí começar a faxina, pois escada
suja tem que ser varrida de cima para baixo, e ainda bem que eu moro no
porão...
Foi então
que o dono do boteco, Itagiba, gaúcho lá de Carazinho, passando um pano molhado
na mesa, murmurou: sou do tempo em que polícia era polícia, ladrão era ladrão e
jornalista era jornalista...

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