sábado, 26 de abril de 2014

EDIÇÃO Nº 73: ABRIL DESPEDAÇADO



 
 
 
O Autor, em abril, fica na moita. Mês difícil, tanta coisa ruim... A última edição foi na transição 31-03/01-04, 50 anos de trágica memória do Golpe Milico-Empresarial.
A de hoje é para, apesar das cinzas, abril não passar em branco.
Tivemos ainda a farsa do 21 de Abril, comemorando a liberdade sem povo em Ouro Preto, sob a batuta do candidato que promete afundar a Petrobras e fundar a Petrobrax.
E também a farsa da comemoração da Rede Globo no dia 25, 40 anos das Diretas Já, que a emissora boicotou na época. Sua cara-de-pau só não é maior porque não cabe na telinha.
Mês de farsas...
E os pilantras nem disfarçam...
26-abril-2014
 

CARDÁPIO

1)      A ESCOLHA DE AÉCIO

2)      AS GALINHAS DO FUX

3)      REI MOMO

4)      21 DE ABRIL

5)      ÁLCOOL EM PÓ

6)      ESTADO DE DIREITA

7)      SOCIALISMO ARIANO

8)      QUESTÃO DE QUANTIDADE

 

A ESCOLHA DE AÉCIO

À procura de uma mulher, o candidato da Petrobrax...

Vice para enfrentar uma mulher, outra mulher, para dizer ao eleitorado feminino, maioria, que também tem mulher na chapa.

Só falta esquentar. Alguns nomes já foram ventilados: a deputada federal Mara Gabrilli (PSDB-SP) e a senadora Ana Amélia de Lemos (PP-RS). A primeira é da terra de Serra, maior colégio eleitoral, e além dos votos femininos poderia atrair os dos deficientes, sua área de atuação. A segunda, por ser do PP, para enfraquecer a base da atual presidenta. Parece que a tendência é paulistar... Uma terceira via é a ex-ministra do STF, Ellen Gracie, recém-filiada ao tucanato carioca.

Bem, para reforçar o leque de possibilidades, Pau Comeu, da cova de sua insignificância, sugere outros quatro nomes de altíssimo grau de importância para valorizar o palanque tucânico.

A primeira, Raquel Sheherazade, que vem mostrando, através de suas aparições na TV do SBT, estar afinadíssima com o pessoal da massa cheirosa que pendura a não-cheirosa nos postes disponíveis. A segunda é plural populacional, Márcia Milhomens, promotora que propôs monitorar os telefones do Planalto via coordenadas geográficas, mais uma novidade na nossa atualmente criativa Justiça. A terceira, Ana Maria Braga, é a encarnação da vigilância sobre a inflação: quando um produto encarece, ela aparece na TV com um colar denunciando o vilão. Sorte dela que a melancia não resolveu inflacionar. E, last but not the least, Ivete Sangalo, que dispensa apresentação, por sua imensa popularidade junto às massas de todos os cheiros.

Entre os homens já foram ventilados três apaulistados (não são a pau listados, revisão): Fernando Henrique Cardoso, mentor e guru do candidato da Petrobrax, Serra, ex-inimigo quiçá futuro, e Aloysio Ferreira, ex-comunista arrependido de seus arroubos juvenis.

Pau Comeu prefere as mulheres.

 

AS GALINHAS DO FUX

Bons tempos de criança e adolescente: eu era feliz, Ataulfo, e também não sabia. Lá no Rio Comprido do Rio de Janeiro, no sopé do Morro da Liberdade, a rua vendo passar o bonde que ia para o centro da cidade.  Primeira tarefa era a adaptação ao linguajar. Do mineiro uai para o carioca xis.

Um verbo novidade para mim era o afanar. Sinônimo de surrupiar. O carioca adorava nomes diferentes. No futebol, Arquibaldo era o torcedor da arquibancada, Geraldino o da geral. No crime desorganizado, mais para o informal, Afanásio era o nome que batizava esse tipo de ladrãozinho também conhecido como descuidista, amigo do alheio, batedor-de-carteira, por aí...

Outro dia lembrei-me disso, pois um cidadão de nome Afanásio, preso por roubar galinhas, ganhou as páginas dos jornais por ter seu delito chegado ao Supremo Tribunal Federal para julgamento, percorrendo todas as instâncias inferiores e não sendo nem condenado nem absolvido em nenhuma.

Realmente, esse fato diz bem da original Justiça Brasileira, novidadeira como ela só.

Depois dos últimos atos do STF, em que alguns exemplares da espécie humana só tiveram direito à instância superior, para que não houvesse qualquer tipo de contestação, Afanásio e suas penosas conseguiram chegar lá.

Seu delito vai ser julgado pelo excêntrico humorista Ministro Fux. Atenção, revisão, não é Fucks não!

Corre-se sério risco de condenação das galinhas, à revelia e post-mortem, por terem sido comidas antes do julgamento final.

 

REI MOMO

 

Distraído, pensava que Rei Momo era uma figura simbólica exclusiva do Carnaval, a maior festa da Cristandade depois do Natal, do Reveillon e da Semana Santa.

Ledo Ivo engano, assim gostavam de escrever os jornalistas de antanho, lembrando e homenageando o estimado escritor.

Tem Rei Momo fora de época e em outras festas. Vez em quando surge um espécime.

O último apareceu nesse abril despedaçado.

Trata-se de um vereador tucano de Salvador, Bahia, presidente do Sindicato dos Policiais Civis (?)(Militares não se sindicalizavam...) de nome Prisco, se não me engano.

Se for prisco mesmo, é relativo ao passado. O que não combina com o Partido de origem, que desde que fundado nunca viu um representante ser encarcerado.

Temos afirmado, à exaustão, aqui nessa tribuna: a experiência mostra que lugar de tucano não é na cadeia, em priscas eras denominada xilindró.

Jaulas, sim. Gaiolas, idem. Cadeias, never.
Até aí morreu o Neves...
E por que Rei Momo?

Periga ser o Primeiro e Único.

 

21 DE ABRIL

As festividades desse dia sempre foram estranhas para o locutor que vos fala.

Menino de primário, aprendi na escola pública municipal que era para homenagear Tiradentes, o brasileiro herói da Inconfidência Mineira.

Mais pra frente cantarolei o samba que dizia “Joaquim José/ da Silva Xavier/ morreu a 21 de Abril/ pela Independência do Brasil./ Foi traído/ e não traiu jamais/ a Inconfidência/ de Minas Gerais”.

O estranhamento começa quando adolescente, apresentado ao dicionário, fiquei sabendo que a palavra “inconfidência” significava traição. Mais precisamente, “deslealdade”, “infidelidade”, e principalmente, no caso, “falta de fidelidade particularmente para com o soberano ou o Estado”.

Ora, como é que um herói da Liberdade pode passar à História como traidor? O Estado era o português, éramos colônia que queríamos liberta. “Libertas quae sera tamen”, dizia a bandeira de Minas, ainda que tardia.

Foi assim minha primeira aula prática sobre como a História é escrita e gravada com ferrete pelos poderosos e vencedores.

Estudante em Ouro Preto, ditador de plantão Costa e Silva, 1967, Praça Tiradentes, 21 de Abril, povo tangido das ruas, festividades dos golpistas milico-empresariais, estudantes cultivando ressaca da noite anterior em meio à invasão de veículos de guerra e botas profanando as ladeiras históricas, invadindo repúblicas à procura de subversivos, armas, livros. No palanque do Golpe, as “autoridades” condecorando milicos aéreos, terrestres e aquáticos, além de dezenas de civis bajuladores.

Parece que os milicos se foram, ficaram os bajuladores.
Ouro Preto sofria. Ouro Preto sofre.

2014. 21 de Abril. Ouro Preto. Jornais mostram a Praça Tiradentes novamente sem povo. Parece que foi ontem. Agora, “autoridades” eleitas por voto direto condecoram novos bajuladores.

Recebo e-mail de um dedicado cidadão ouropretano, que reproduzo na íntegra:

 

Caros amigos,

 

Como vocês acompanharam, briguei contra o 21 de Abril oficial por muitos anos. De pouco valeu a indignação dos ouropretanos: o Playcenter da Inconfidência foi montado de novo na praça Tiradentes, espalhafatoso, caro, repressor e politiqueiro.

Este ano, vamos fazer algo diferente: um 21 de Abril Popular.

No dia 27, domingo que vem, faremos uma grande festa na praça Tiradentes para comemorar, ao nosso modo, a Inconfidência Mineira. Sem cordão de isolamento, sem aparato roliudiano e sem discurso. Não é uma festa contra ninguém. É a favor da Liberdade, da Alegria e da Cidadania.

Às 10h da manhã, faremos uma Mesa Redonda sobre a Inconfidência, na Câmara Municipal. A partir das 14h, teremos atividades artísticas, circo, fanfarra, filmes, exposição de fotos, brincadeiras para crianças, apresentações musicais, homenagens a ouropretanos e muito mais.

 

O evento é iniciativa de cidadãos ouropretanos, da Arquidiocese de Mariana/Paróquia do Pilar e da FAMOP - Federação das Associações de Moradores de Ouro Preto.

Neste Dia de Tiradentes, a praça vai ser sua de novo. Participe.

Acompanhe no Facebook: 21 de Abril Popular.

 

Flávio Andrade – Cidadão

 

ÁLCOOL EM PÓ


Trata-se de uma invenção revolucionária, noticiada na imprensa também nesse mês de abril. Pelo visto, poderá ser dissolvido em água e ministrado via oral. Ou, se o freguês preferir, aspirado. Tem gente que já está elogiando o produto na segunda via, pois mata dois coelhos com uma só “pórrada”.

 

ESTADO DE DIREITA

Mantida a tendência em vigor, a Grande Imprensa do Brasil incentiva e aguarda a substituição do Estado de Direito pelo Estado de Direita, não importa se via oral ou via nasal.

 

SOCIALISMO ARIANO

Anos depois do socialismo moreno de Darcy e Brizola, sepultado junto com os dois personagens, entra em cena o socialismo ariano. Não se sabe ainda se deve o nome aos olhos azuis do neto de Arraes ou ao até agora inexplicável apoio de Ariano Suassuna.

 

QUESTÃO DE QUANTIDADE

Milicos, empresários, torturadores e simpatizantes costumam argumentar que a Ditadura brasileira não deveria ter essa denominação. Já propuseram trocá-la por ditabranda. Pau Comeu sugere ditamole.

Como razão, contabilizaram menos de 1000 mortos, insignificância perto dos milhares de chilenos e argentinos, hermanos sacrificados na Operação Condor.

Tomo emprestado um trecho de Luís Paulo Domingues:

“(...)Dizem que o filósofo Ludwig Wittgenstein foi colega de classe de Hitler (Imagine sentar-se ao lado do Hitler na sexta série!). Mas é incrível como, da mesma escola, saíram pessoas tão diferentes. Enquanto Hitler achava que valia pagar o estigma de eliminar os judeus, os ciganos, os mestiços... Wittgenstein, em um dos seus aforismos, escreveu: “-A dor de uma pessoa é a dor da humanidade inteira.”


Pois é, ao mesmo tempo em que afirmam que “Jango e sua camarilha comunista” iriam implantar uma república anarco-sindicalista, e que possuíam aparatos militares capazes de atingir tal proeza, a somatória inferior a 1000 cadáveres entre torturados e abatidos demonstra claramente que não havia condições objetivas para que o resultado fosse outro que não a dizimação dos que defendiam a legalidade constitucional. Isso equivale a dizer que não houve resistência, na prática.

Já que insistem em classificar de ditabranda, então fica combinado assim e para satisfazer o cinismo dos que adoram rasgar a Carta Magna, ontem, hoje e amanhã, Pau Comeu propõe:

a)      De 1 até 999 mortos >>>ditamole;

b)      De 1.000 a 9.999 mortos >>> ditamédia;

c)      10.000 ou mais >>> ditadura;

d)      Acima de 100.000... genocídio.


A edição estava em forno brando quando saiu a notícia da morte do torturador que confessou prazer em torturar presos políticos, o coronel reformado do Exército Paulo Malhães. Com requintes de crueza e frieza, admitiu, além dos métodos já consagrados pela ciência anti-humana, a utilização de filhotes de jacaré e uma jiboia. Segundo ele, “os filhotes não mordiam, só faziam um tec-tec com a boca”.

Se continuasse a confessar outras barbaridades, não se sabe aonde esse soldado dos anos de chumbo iria parar. Uma versão de seu assassinato é que teria sido objeto de “queima de arquivo”.

A família, que não sabia do hobby do patriarca, também não sabe o que pensar sobre o motivo da sua morte.

A família é a última a saber.

A do torturado.

E a do torturador.




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