segunda-feira, 31 de março de 2014

EDIÇÃO Nº 72: BAÚ DO GOLPE


 
 
 
 
 
Quem conhece bem o pensamento do Autor sabe que essa é uma data de luto.
Enojado com as mentiras com que a Grande Imprensa vem tratando sua participação no Golpe de 1964, depois de 50 anos de enriquecimento pelo apoio ao evento, minha vontade é pular essa data e deixar para depois de amanhã.
Porque amanhã é o verdadeiro dia do Golpe, Primeiro de Abril, que não foi de mentira.
Por isso segue uma crônica que completa 20 anos, resgatada do fundo do baú.
 
31-03-2014 -Primeiro de Abril.
 

 

ABRINDO O BAÚ

 
Só para me posicionar perante os que pregam mais um Golpe contra a Democracia...

Esta carta foi escrita no dia Primeiro de Abril de 1994, em comemoração aos 30 anos do Golpe Milico-Empresarial, em que o autor, um dos milhares de brasileiros vitimados pelas torturas psicológicas perpetradas pela estupidez dos poderosos reinantes naqueles anos de chumbo, declara todo seu nojo aos que adoram comemorar aquela fatídica data.

 

Belo Horizonte, Primeiro de Abril de 1994.

 

Prezados irracionais terrestres, aéreos e aquáticos.

        

Trinta anos passados e nunca tive o desprazer de topar com vocês passeando pelas ruas do país, parados nas esquinas da pátria, bebericando nos botequins da nação. Nisso até que fui feliz! Não gosto de vocês, mas sei que há quem goste, já que há gosto para tudo. Há até quem vote em vocês, mas voto não se discute, acata-se, vocês nem sempre se lembram disso. Ao respeitar o resultado das urnas, mesmo torcendo ou tapando o nariz, manifesto minha vocação democrática sem recaídas... Nunca mandei às favas os escrúpulos.

 Continuo livre e meus rebentos, a quem procuro orientar para o exercício paciente e perseverante da democracia, também. Assim, apesar das dificuldades ainda podemos andar pelas ruas, esquinas, becos sem saída, artérias e becos da pátria, mas vocês... não!

Nessas idas e vindas, nas caminhadas dia após dia, cabeças erguidas, podemos encarar, olhos nos olhos, nossos irmãos deserdados, mesmo quando assaltados pelos esfomeados que vocês, com tanta competência, produziram aos milhões.

Acho bom que continuem disputando voto a voto os espaços, porque trago armazenado na cabeça um ódio profundo à ditadura militar... É ódio sólido e frio, que mora num “freezer” da mente, que não deixei desligar. Lá jazem cubos de gelo com o que tive de engolir, com o que me fizeram calar: são répteis tão amargos, venenosos, que nem pude vomitar.

Lá estão, bem gravados, nomes que nunca esqueci, entre os quais os de vocês, que seguiram suas vidas impunes, mesmo tendo roubado tantas outras. Acho legal vocês prosseguirem jogando o jogo da democracia, mesmo com todas as regras fajutas que deixaram como herança.

 

Porque...

 

Porque se fecharem as janelas, minha repulsa, dormente, um pouco atrás da garganta, vai ter tudo a declarar!

Porque, se fecharem as portas, meu desprezo ainda preso, um pouco atrás da repulsa, tá doido pra se liberar!

Porque, se fecharem os caminhos, meu escarro ainda contido, um pouco atrás do desprezo, tá pronto pra disparar!

Não mudem as regras conforme seus interesses, meus caros, caríssimos (custaram os olhos da cara!) animais terrestres, aéreos e aquáticos, porque, repito, trago armazenado na cabeça um ódio profundo à ditadura militar... Longe do coração, que cuidei de proteger, que cuidei de preservar, pra nunca deixar de amar...

Nunca mais vi farda na rua, nem terrestre, nem aérea, nem aquática... a não ser nos carnavais.

 

POSTE ESCRITO

 Aos golpistas atuais, de quaisquer procedências, meu sincero nojo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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