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Quem conhece bem o pensamento do Autor sabe que
essa é uma data de luto.
Enojado com as mentiras com que a
Grande Imprensa vem tratando sua participação no Golpe de 1964, depois de 50
anos de enriquecimento pelo apoio ao evento, minha vontade é pular essa data
e deixar para depois de amanhã.
Porque amanhã é o verdadeiro dia do
Golpe, Primeiro de Abril, que não
foi de mentira.
Por isso segue uma crônica que
completa 20 anos, resgatada do fundo do baú.
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ABRINDO O BAÚ
Esta carta foi escrita
no dia Primeiro de Abril de 1994, em comemoração aos 30 anos do Golpe
Milico-Empresarial, em que o autor, um dos milhares de brasileiros vitimados
pelas torturas psicológicas perpetradas pela estupidez dos poderosos reinantes
naqueles anos de chumbo, declara todo seu nojo aos que adoram comemorar aquela
fatídica data.
Belo Horizonte, Primeiro de Abril de 1994.
Prezados irracionais terrestres, aéreos e aquáticos.
Trinta anos passados e nunca tive o desprazer de topar com
vocês passeando pelas ruas do país, parados nas esquinas da pátria, bebericando
nos botequins da nação. Nisso até que fui feliz! Não gosto de vocês, mas sei
que há quem goste, já que há gosto para tudo. Há até quem vote em vocês,
mas voto não se discute, acata-se, vocês nem sempre se lembram disso. Ao
respeitar o resultado das urnas, mesmo torcendo ou tapando o nariz, manifesto
minha vocação democrática sem recaídas... Nunca mandei às favas os
escrúpulos.
Nessas idas e vindas, nas caminhadas dia após dia, cabeças
erguidas, podemos encarar, olhos nos olhos, nossos irmãos deserdados,
mesmo quando assaltados pelos esfomeados que vocês, com tanta competência,
produziram aos milhões.
Acho bom que continuem disputando voto a voto os espaços,
porque trago armazenado na cabeça um ódio profundo à ditadura militar... É
ódio sólido e frio, que mora num “freezer” da mente, que não deixei desligar.
Lá jazem cubos de gelo com o que tive de engolir, com o que me fizeram
calar: são répteis tão amargos, venenosos, que nem pude vomitar.
Lá estão, bem gravados, nomes que nunca esqueci, entre os
quais os de vocês, que seguiram suas vidas impunes, mesmo tendo roubado tantas
outras. Acho legal vocês prosseguirem jogando o jogo da democracia, mesmo
com todas as regras fajutas que deixaram como herança.
Porque...
Porque se fecharem as janelas, minha repulsa, dormente, um
pouco atrás da garganta, vai ter
tudo a declarar!
Porque, se fecharem as portas, meu desprezo ainda preso, um
pouco atrás da repulsa, tá doido pra se liberar!
Porque, se fecharem os caminhos, meu escarro ainda contido,
um pouco atrás do desprezo, tá pronto pra disparar!
Não mudem as regras conforme seus interesses, meus caros,
caríssimos (custaram os olhos da cara!) animais terrestres, aéreos e aquáticos,
porque, repito, trago armazenado na cabeça um ódio profundo à ditadura
militar... Longe do coração, que cuidei de proteger, que cuidei de preservar,
pra nunca deixar de amar...
Nunca mais vi farda na rua, nem terrestre, nem aérea, nem
aquática... a não ser nos carnavais.
POSTE
ESCRITO

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