quinta-feira, 31 de outubro de 2013

EDIÇÃO Nº 54- A: O ÚLTIMO CHURRASQUINHO




 
 
 
 
 
 
 
 
 
O autor jura que não está tomando nem leite de vaca nem leite de onça, mas vai sentir falta do churrasquinho...
31-10-2013



 



POMBO CORREIO

Devido à profusão de temas candentes, inadiáveis, Pau Comeu deixa de lado sua periodicidade normal (dias 07-17-27 de cada mês) e solta essa antecipação (54-A) mais reduzida em número de temas, mas nem por isso dotada de menos conteúdo. No dia 07-11-2013 será publicado o 54-B.

 

CARDÁPIO

·         BOOMERANG DA CBF

                Homenagem aos (ir) responsáveis pelo futebol brasileiro

·         COMA SEU CHURRASCO HOJE, PODE TER SIDO O ÚLTIMO...


                Reflexões sobre a dinâmica  econômica do futuro governo social-paleontológico.

·         PERNICIOSIDADE

      Reflexões sobre Deus e o Diabo na velha jovem guarda.

 

·         UMA CIDADE PARA INVESTIDORES

             Uma contribuição da leitora e amiga Vera Westin sobre a urbanização de BH.


BOOMERANG DA CBF


 

>>>>>>>>>>> Entidade estuda pedir a perda da cidadania brasileira do atleta que escolheu defender a Espanha.

José Maria Marin, atual presidente da CBF e sua Quadrilha Ilimitada.

>>>>>>>>>>> Torcida organizada vai ser autorizada a partir do clube e haverá monitores para ensinar comportamento adequado aos torcedores.

Marco Polo Del Nero, futuro presidente da CBF e sua futura Quadrilha Ilimitada.

<<<<<<<<<<< Povo Brasileiro pede prisão perpétua de Marin e Del Nero em uma pirâmide egípcia, pelo delito de excesso de estupidez.

Pau Comeu, em estado de perplexidade diante de tantas asneiras dessas duas múmias.

 

COMA SEU CHURRASCO HOJE, PODE TER SIDO O ÚLTIMO...


Ou então muda o cardápio.


Por peidar demais, pois “(...) o gado brasileiro responde por emissão de gases que geram grande quantidade de C02”, estão com os dias contados o leite da vaca e a carne do casal bovino.

Será proclamada a (Con)Sagração do Gado Vacum nas terras descobertas por Cabral e ampliadas pelos bandeirantes escravizadores paulistas e pela diplomacia pragmática do Barão do Rio Branco.

Assim, milhares de criancinhas que foram acostumadas ao líquido branco, terão que se acostumar com o sucedâneo “sojeite”, porque os adultos, nós, já traçamos o “sojurguer” nosso de cada dia.

Segundo o marinólogo sustentável Eduardo Gianetti da Fonseca, futuro ministro da Economia do socialismo-paleontológico, as diretrizes alimentícias terão que ser modificadas radicalmente:

Criamos no mundo moderno um sistema que é quase uma regra de convivência: você busca situações e posses que deem a você algum tipo de admiração, de respeito, daqueles que estão a seu redor. Contrapartida disso, quando se espalha e se massifica em escala planetária, na China, na Índia, no Brasil, é a destruição irreparável da natureza.”

Ou seja, somos penetras indesejáveis até no universo da gastronomia básica, pois, segundo o arauto dos novos tempos... Comer um bife é uma extravagância do ponto de vista ambiental.”

Também sem essa de ficar viajando de avião pra cima e pra baixo, pois Dona Danuza Leão já reclamou que os aeroportos estão ficando insustentáveis com essa gentinha que nunca comeu melado (leia-se: que nunca viajou de avião). Segundo a musa antropóloga das elites, agora perdeu a graça ir para a Europa, pois qualquer um pode ir. Sem saber, ela aplicou a teoria do futuro ministro, que já disse: Pegar um avião para atravessar o Atlântico é uma extravagância sem tamanho, do ponto de vista ambiental. Você emite mais dióxido de carbono do que um indiano durante uma vida.”

Como fazer para alcançar o mundo perfeito? Não vale peidar e só pode atravessar o oceano a nado?

Nem tanto, a Lei Maior, a cláusula pétrea da Nova Constituição será: aumentar o preço de “tudo que tem impacto ambiental”. Assim, só peida se puder pagar o preço e Dona Danuza poderá desfilar sua arrogância pelos ares não mais poluídos, em todos os sentidos...

Como tudo no mundo tem impacto ambiental, então, em última instância, para resolver a nervosa dialética hegel-gianettiana e para simplificar a discussão, CRESCIMENTO ZERO JÁ! E mais, vedar a ascensão das classes mais periféricas ao paraíso do consumo global, ou seja, para deixar a hipocrisia de lado, DESEMPREGO JÁ! E, para não deixar pedra sobre pedra nessa construção piramidal, para não sacrificar demais as classes dominantes, EUGENIA JÁ!

 

PERNICIOSIDADE

 

Não tenho nada contra quem acha o Roberto Carlos um grande cantor...

O rei da Matusalêmica Jovem Guarda saiu do limbo do qual só acorda no fim do ano no programa natalino da Globo (cada ano que passa a mesma novidade...), para dar uma entrevista... para quem? Claro, para a Rede Globo, que pergunta idiota desse tal de Pau Comeu...

E disse a seguinte pérola:

 Pessoas têm dito que eu sou contra (as biografias não-autorizadas) por causa do meu acidente. Não é isso, não. Eu, quando escrever meu livro, eu vou contar do meu acidente. Ninguém poderá contar do meu acidente melhor que eu. Ninguém poderá dizer aquilo que aconteceu com todos os detalhes que eu posso. Porque ninguém poderá dizer o que eu senti e o que eu passei. Desculpa a rima, porque isso aí só eu sei“.

Pau Comeu perdoa a rima pobre e a pobreza do argumento e segue em frente.

Ninguém pode descrever como Martim Luther King sobre seu assassinato. Ninguém pode, como Noé, descrever o dilúvio. Ninguém pode, como Salvador Allende, escrever sobre a traição que sofreu culminando com seu suicídio. Sim, ninguém pode, como Jesus Cristo, descrever sua própria crucificação.

Então, já que é assim, Pau Comeu toma a liberdade de publicar uma “não-autorizada”, saindo da pena do talentoso José Miguel Wisnik (http://jornalggn.com.br/noticia/para-lutar-contra-biografia-marrom-teremos-que-viver-sob-a-egide-do-silencio):

“(...) O Rei sofre de uma amputação que não deve ser nomeada, como a proferição de um vazio insuportável. O silêncio público sobre a falta de que sofre o Rei é um daqueles segredos que todos conhecem. Os súditos do Rei parecem acolher o segredo do Rei, e isso faz parte do pacto íntimo que ele faz com o seu público. O Rei acha que a biografia estragaria tudo, embora o público o amasse ainda mais se ele desse a revelar o segredo que todos sabem. É doloroso, mas é a vida.(...)”

Pau Comeu relembra um desfile de Escolas de Samba de um Carnaval que passou, na Edição nº 15, já faz tempo, publicada em 27 de novembro de 2012:

            O Cristo crítico do Joãosinho Trinta não pôde, anos atrás, obrigado a desfilar   oculto sob uma capa plástica preta, mas o Cristo Pai do rei pode, afinal rei é rei e pode usar qualquer símbolo para santificar sua pretensa e pretensiosa majestade.  Uma medida para aumentar a sensação de equilíbrio seria colocar Cristo em todas as escolas, aí teria que haver empate nesse quesito, pois estaria garantida a onipotência, onisciência e onipresença, resultando em uma desejável equivalência.

            Assim o Filho de Deus não interferiria no resultado. Também, quem sabe, para  reforçar o conceito, toda Comissão de Frente deveria portar uma tabuleta com  os dizeres “Jesus Cristo eu estou aqui”. Isso ele disse anos depois de gritar ‘’E que tudo mais vá pro Inferno!”, que positivamente não é o endereço do Avô do rei, rei de que mesmo? Ah... da velha Jovem Guarda, não a Velha Guarda da  Portela nem da Mangueira, mas das coroas desesperançadas e das mulheres  mal-amadas.
             O festival de notas 10 da vencedora do desfile foi obra de Deus, ou de seu Filho, ou de seu neto, o rei vestido de azul. Vestido de azul?

            O abraço unindo o rei da velha jovem guarda e o rei da contravenção foi  esclarecedor.

            Alguém, na multidão, com certeza viu que o rei estava nu.

Sim, ninguém pode, como Jesus Cristo, descrever sua própria vida e crucificação. Estão desautorizados todos os que o fizeram.
Como diz o terceiro mandamento, “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.”

Em vão...

 

UMA CIDADE PARA INVESTIDORES

(Um ensaio de Vera Westin sobre a urbanização de Belo Horizonte)

 Quarenta anos depois do poema-denúncia de Drummond sobre o Triste Horizonte desta cidade no final dos anos setenta, as suas palavras continuam atuais. Mas teríamos que nos investir do espírito do nosso poeta maior para dizer da Pampulha, região que é posterior à juventude belorizontina de Drummond e que naquele momento não merecia ainda o lamento que as regiões mais centrais provocavam. Tarefa impossível é reeditar a voz poética, mas a perplexidade e a indignação precisam de um grito de denúncia.

A história se repete – como é mesmo? – a primeira vez, como tragédia, a segunda, como farsa? Pois a região da Pampulha e a própria lagoa que lhe toma o nome são hoje o alvo da feroz gana imobiliária e do descaso ou conivência do poder público. Como em outras eras, sem respeito pelo que lhe dá identidade, qualidade do ar, belas paisagens, o verde como pano de fundo, espaço de lazer e práticas esportivas, contemplação. Nos limites do município de Belo Horizonte, não existe espaço público urbanizado com esses valores.

E quem deles se beneficia?  Os moradores privilegiados dos bairros chiques da região unicamente, como querem as vozes que proclamam a verticalização da região? E o que dizer dos fins-de-semana no zoológico, no Parque “Mangueiras”? E dos eventos esportivos - corridas, caminhadas? E do puro perambular pela orla da lagoa, que antes oferecia o prazer paciente de pescadores? E dos ciclistas e da mera contemplação da paisagem, o sol refletido no espelho d’água, as árvores oferecendo sombra e ambos amenizando os efeitos do ar seco de Belo Horizonte? E dos monumentos modernistas, cartão postal da cidade por tantas décadas, São Francisco quase alçando vôo pela leveza das linhas de Niemeyer? E dos fogos do Réveillon, as oferendas a Iemanjá?

A contumaz depredação de monumentos, exemplares arquitetônicos e sítios naturais em Belo Horizonte é sina, barbarismo ou irresponsabilidade civil? A verticalização voraz que traz maiores lucros e estrangulamentos por metro quadrado é a única opção? A quem serve? Um Belvedere que é hoje uma muralha de concreto barrando os ventos do sul não se tornou, por acaso, num nó urbanístico de trânsito, adensamento e mesmo de riscos geológicos?

Se algum belorizontino se der ao trabalho de lançar um olhar mais atento para o Belvedere, aproveitando alguma fresta da Raja Gabaglia (outro triste horizonte de muralhas de concreto pela apropriação da paisagem), vai ter duas visões distintas: primeiro, no sentido centro-bairro, um recanto arborizado, entremeado de telhados de casas, acomodados num regaço da montanha, numa harmoniosa combinação de natureza e ocupação humana; em seguida, a muralha de torres que parece querer competir com a Serra e por isso não respeita seus meandros, grotas, encostas. Arremedo grotesco das cidades medievais, onde a altura das torres sinalizava o lastro de riquezas dos seus proprietários? Ambição tosca e quase selvagem dos que confundem palavras fetichizadas como progresso, modernidade, status, alto padrão com apropriação da paisagem em áreas que, em qualquer lugar mais civilizado, seriam preservadas como bem ambiental coletivo? Ganância guiada pelo mesmo desvario predador dos que já mutilaram a cidade em épocas pretéritas?


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Perdem ricos e pobres, ganham os poucos investidores – “donos” da cidade – e cidadãos (?) especiais. Bens ambientais e paisagísticos coletivos são o que torna as cidades atrativas para cidadãos, turistas e, em última instância, também para investidores, na medida em que esses atributos redundam em valor monetário pela qualidade de vida que proporcionam. Há muitos bairros não-ricos no entorno da lagoa que se beneficiam direta e indiretamente das suas proximidades. Diretamente como lazer e desfrute de um espaço público bonito, aprazível; indiretamente, pela qualidade do ar e pelo tráfego menos congestionado em alguns pontos. E aqueles que hoje já são pontos de estrangulamento, como estarão com o adensamento que vem com a verticalização?

Cidades atrativas, com qualidade de vida e visitadas no mundo inteiro trilham um caminho oposto ao que BH está trilhando: preservação do patrimônio histórico e ambiental, prioridade para o interesse dos cidadãos e não de grupos, prioridade para os espaços públicos frente aos interesses individuais ou de grupos. O que faz as cidades européias atrativas para o turismo são os bairros modernos ou os monumentos de época e os jardins e parques enormes e numerosos das principais capitais?

Em Valência, na Espanha, um maravilhoso parque linear foi construído no antigo leito de um rio, que teve seu curso desviado em função de enchentes na área urbana. As pontes antigas foram preservadas e outras de arquitetura moderníssima foram erguidas; jardins, quadras, playgrounds e outros equipamentos de esporte e lazer, intensamente utilizados, podem ser vistos quando se percorrem alguns quilômetros nas avenidas laterais. Se em Belo Horizonte fosse desviado o curso de algum rio, o que se veria é a construção de shoppings, edifícios residenciais e outros empreendimentos lucrativos. Tudo com muito concreto impermeabilizando o solo e as oportunidades de fruição da cidade e dos espaços públicos. Pois opiniões de leitores de edições on-line de jornais locais já não se puseram a favor de deixar secar a lagoa da Pampulha e criar espaços para que a construção civil torne a região mais moderna e “urbanizada”? Ainda bem que são e que permanecem vozes isoladas! (A menos que a letargia e o imobilismo em relação às obras de despoluição da lagoa sejam indícios de um “projeto” de tornar a sua morte um fato consumado...)

Para não dizer mais, é no mínimo bizarro esse cenário, assim como bizarra e inacreditável é a falta de eco para o anúncio de que a verticalização vai trazer o adensamento da região sem a correspondente infraestrutura. E isto se traduz em maior poluição da lagoa e do ar, gargalos de trânsito e as filas intermináveis de carros – que já agora transtornam a rotina dos moradores locais – enfim, baixa qualidade de vida não só para quem mora, mas também para todos os que trabalham ou passam pela Pampulha a caminho de casa, da escola, do lazer ou do emprego. É o tipo de silêncio que atordoa, o cale-se que permite que se engendrem decisões sem volta nos escritórios das construtoras e de outros empreendedores interessados. Poucas vozes se pronunciam, até são noticiadas, mas sem ênfase e eficácia, quando está em jogo uma questão que toca a cidadania na sua raiz: o cidadão de Belo Horizonte ter poder de voto e veto naquilo que atravessa o seu dia-a-dia, com transparência nas informações, o tema posto na praça para ser discutido.

Que a cidade seja pensada e construída para e pelos seus cidadãos num espaço de cidadania ampla - e não permaneça apenas uma cidade para investidores.

(Vera Ligia Westin)
 
 
 
 
 
 

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