quarta-feira, 17 de julho de 2013

EDIÇÃO Nº 43: LEGADOS E DELEGADOS DO CORVO



O autor, tomando umas e outras,
mandou uma pro santo protetor do pessoal que gosta
e outra pros que pararam de gostar.

Em raro momento de reflexão......
chegou à conclusão de que Obama
é a reencarnação evolutiva  (ou involutiva) do Pai Tomás,
que acabou trocando  a Cabana pela Casa Branca.
(17-07-2013)
 


CARDÁPIO

Pau Comeu relaciona os assuntos à disposição dos leitores:

·         DICA DE LIVRO: Tiãozito e seu “O jegue treiteiro”;

·         EXQUERDISTAS: Os delegados de Carlos “Corvo” Lacerda;

·         LEVE IMPRESSÃO: Dona Dilma e Paulo Bernardo;

·         QUASE CERTEZA: Empregabilidade pública de mineiros e cariocas;

·         NÃO EXISTE RACISMO NO BRASIL DE ALI KAMEL: Ele assim o disse;

·         HERÓI MODERNO: Quem merece hoje ser chamado de herói?;

·         DAS VISÕES SOBRE A ESPIONAGEM AMERICANA: USA e CIA ilimitada;

·         A TRILOGIA DA TRINCA: Uma trilogia a seis mãos;

·         THE END: A direita e a plebe.


DICA DE LIVRO


Tenho em mãos, emprestado pelos “dedicatoriados” Tonico, Cléber e André, da Barbearia Conde Linhares, livro da autoria de Sebastião Cardoso, o Tiãozito de Brumado para o Mundo...

Antes de devolver, escolho umas poucas passagens para registrar as delícias literárias contidas em “O jegue treiteiro”, título de uma crônica que deu nome ao livro, de 2002, publicado pelo “Armazém de Idéias” de Belo Horizonte, nos bons tempos anteriores à estúpida reforma ortográfica que tirou o acento de Ideias no é.

Formado em Direito e humorista qualificado, Tiãozito faz desfilar, na crônica  “Ditos Eruditos”, algumas pérolas da Ciência cultuada pelos que adoram falar difícil as coisas mais fáceis. Bom exercício para os leitores traduzirem, incluindo-se, na última, uma referência ao nome do blog do locutor que vos fala:

·         Símio por símio na ramificação arbórea que lhe é competente.”

·         “Piperácea em alheio globo ocular é refrigério.”

·         “Ofídio que não se locomove, não deglute batráquio.”

·         A fêmea do bovino deslocou-se em direção ao terreno pantanoso.”

·         Após o crepúsculo, todos os domésticos felinos transmutam-se em cinéreos.”

·         Afirmação de monarca no tempo não retrocede.”

·      Redigiu, não interpretou, o bastão deglutiu.”

 

Outra muito boa, numa prova oral, um aluno já aprovado na escrita resolveu tirar um sarro no professor quando este o indagou:

            “-A que categoria gramatical pertence a palavra aqui?

            -Verbo, foi a resposta imediata.

            E o professor, sem se assustar:

            -Então conjugue o presente do indicativo, meu gênio!!

            -Eu aqui/tu ali/ele acolá/nós aquém/vós além e eles... –titubeou um pouco e o mestre arrematou:

            -Alhures, meu filho. Pode ir embora.

 

P.S: Solicito aos caros leitores não apelidarem Pau Comeu de Bastão Deglutiu. Grato.



 

EXQUERDISTAS


Uso esse neologismo, alguém deve ter criado antes senão vou patentear, para dizer daquelas figuras que, socialistas, comunistas ou esquerdistas na juventude, ao se adulterarem, ou seja, ao se tornarem adultos e experimentarem as tortuosas delícias do dinheiro fácil nem sempre ganho honestamente, transferiram-se para as bandas da direita e, sem exceção ou com apenas aquela que confirma a regra, enriqueceram. Ou, como gostava de dizer Darcy Ribeiro, enricaram.

São muitos os exemplos.

Nessa minha curta existência, o mais famoso foi Carlos “Corvo” Lacerda, ave passeriforme cujo desenho foi criado por Lan. Em Jaguar, fantasiado de porta-bandeira do Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos Pelo Golpe.
(Em tempo: as imagens, por incompetência do autor, não foram editadas, mas podem ser encontradas nos seguintes endereços: http://www.revistagavea.com.br/7/capa.htm E Jaguar.Ultima Hora, 28.03.64, p.3. Fonte: BN) 

Quem não foi comunista aos dezoito anos, não teve juventude, quem é depois dos trinta não tem juízo" foi uma das frases que marcaram a trajetória desse brasileiro que foi o representante máximo do Golpismo como forma de alcançar o Poder. Tentou muito, conseguiu pouco.  O que conseguiu foi ao custo da democracia, coisa que o Corvo nunca cultuou.

Deixou, como sabemos, vários seguidores que não devem ser nominados para não escandalizarem as crianças. Ou devem?

Segundo as biografias da vida, nessas internets que vieram ao mundo para sacanear as grandes imprensas, nasceu em 30 de abril de 1914, em Vassouras, quando o Estado do Rio ainda não era Guanabara. Político e jornalista, Carlos Frederico Werneck de Lacerda ingressa na política como militante da Juventude Comunista. Seu esquerdismo durou pouco tempo. Em 1945 integra a União Democrática Nacional (UDN), o partido baluarte do golpe de sempre e para sempre. Quem se lembra da UDN, sabe o que significou para o Brasil. Elege-se vereador pelo então Distrito Federal em 1947 e funda o jornal Tribuna da Imprensa. Faz dura oposição ao presidente Getúlio Vargas.

Carlos Lacerda, cuja rima rica era... Manobra a mão do suicida.

Em 1955 participa do movimento contra a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek. Em 1960 é o primeiro governador eleito do estado da Guanabara (ex-Distrito Federal). Apóia o golpe de 1964, mas em 1966 busca a ajuda do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e de antigos adversários políticos, como Juscelino Kubitschek e João Goulart, para formar a Frente Ampla, movimento de oposição ao referido Golpe então “institucionalizado”.  Tem os direitos políticos cassados em 1968. Dedica-se, então, ao jornalismo e a sua editora, a Nova Fronteira. Morre, de causa nunca esclarecida (assim como JK e Jango), no Rio de Janeiro, em 21 de maio de 1977.

Sua filosofia pode ser resumida quando tentou o golpe contra Juscelino. Com outras palavras, mantendo o espírito, foi assim:

  1.  JK não vai se candidatar,
  2.  Se se candidatar não vai ganhar,
  3.  Se ganhar não tomará posse,
  4.  Se tomar posse não irá governar.

Simples, não?

Fez escola, o rapaz.


Empolgou inúmeros áulicos, abriu caminhos.

 
Em comum, todos os citados tornaram-se histriônicos, hidrófobos e patéticos ao abandonarem as idéias que os sustentaram na juventude. Roberto Freire, Cesar Maia, Alberto Goldman, José Serra, Raul Jungmann, Ferreira Gullar, Arnaldo Jabor e Fernando Gabeira são apenas alguns exemplos. Sem esquecer João Ubaldo, depois que parou de beber, coisa que deve ter feito bem ao corpo, mas foi péssimo para a cabeça.

Não cito outros tantos, a lista ficaria impublicável. Por não terem suficiente talento, nenhum deles, nem os citados, supera o Corvo, Primeiro e Único, uma espécie de Rei Momo Cadavérico.

 

 LEVE IMPRESSÃO

Pau Comeu está com a leve impressão de que Dona Dilma Presidenta é masoquista, pois só isso explica a manutenção de Paulo Bernardo no Ministério das Comunicações, quando até as 4 famiglias sabem que, com Franklin Martins, a realidade da política de Comunicação no Brasil seria outra. Ou talvez por isso mesmo, né, Dona Presidenta?

QUASE CERTEZA



Uma importante diferença entre o carioca e o mineiro aparece na citação de Joel Silveira, um verdadeiro jornalista, em  texto extraído do livro "Memórias de Alegria", Editora Muad — Rio de Janeiro, 2001, pág. 131.


“ Certa vez, perguntei ao compositor Antônio Nássara, genuíno filho da Rua Ibituruna, no Maracanã, como ele definia um bom carioca. Isso foi num tempo em que por aqui ainda havia políticos.

Ele me respondeu:

— Bom carioca é o que aceita sem ressentimento o fato irremediável de que os bons empregos não foram feitos para ele. E que inútil é disputar com o filho ou o genro de um político mineiro os melhores cargos burocráticos. Uma boca pequena em qualquer repartição pública, onde não tenha que assinar ponto, lhe basta, é o suficiente para que se sinta realizado e agradecido a São Jorge.”
 
 

 NÃO EXISTE RACISMO NO BRASIL DE ALI KAMEL

Um leitor do Blog da Cidadania, de Eduardo Guimarães,

(http://www.blogdacidadania.com.br/2013/07/se-a-globo-nao-paga-imposto-eu-tambem-nao-vou-pagar-e-voce-2/)

de nome Maurílio de Carvalho, postou o seguinte “Teste do Pescoço”. Pescoçar, segundo gíria antiga, é esticar o pescoço pra prestar atenção nas coisas e em conversa alheia.


TESTE DO PESCOÇO

Querem saber se existe racismo no Brasil? Faça o Teste do Pescoço!

1. Andando pelas ruas, observe dentro das joalherias e conte os negros e negras balconistas;

2. Em escolas particulares, sobretudo as de ponta, observe dentro das salas e conte quantos alunos, professores e serviçais, de ambos os sexos, são negros;

3. Em hospitais mais elitizados, observe nos quartos e conte quantos pacientes, médicos e serviçais, de ambos os sexos, são negros;

4. Quando der uma volta num Shooping, ou no centro comercial de seu bairro, mire as vitrines e conte quantos manequins de loja representam a etnia negra consumidora. Observe nas revistas de moda, nos comerciais de televisão, e conte quantos modelos negros fazem publicidade de perfumes, carros, viagens, vestuários e etc;

5. Nas universidades públicas, observe e conte quantos negros há por lá: professores, alunos e serviçais;

6. Em reuniões dos partidos como PSDB e DEM, conte quantos políticos são negros desde a fundação dos mesmos, e depois reflitam a respeito de serem contra todas as reivindicações da etnia negra;

7. Observe, nas passeatas dos médicos em protesto contra os médicos cubanos, quantos médicos/as negros/as marchavam;

8. Observe nas cadeias, nos orfanatos, nas casas de correção para menores, e conte quantos são brancos;

9. Informe-se sobre quantas empregadas domésticas, serviçais, faxineiros, favelados e mendigos são de etnia branca.

10. Observe no Globo Rural e conte quantos fazendeiros são negros, depois tire a conclusão de quantos são sem-terra, quantos são sem-teto. No Globo Pequenas Empresas& Grandes Negócios, quantos empresários são negros?

11. Nas programações das TVs abertas, conte quantos apresentadores, jornalistas ou âncoras de jornal, artistas em estado de estrelato, são negros.

Aplicado o teste, lembre-se que Ali Kamel, todo poderoso diretor da Globo, escreveu um livro (?) afirmando que não existe preconceito racial no Brasil.

 

 

HERÓI MODERNO


Desconfio dessa história de heroísmo, etc. e tal, porque muita gente ruim já foi chamada de herói. Se querem pelo menos um exemplo, o Duque de Caxias, co-autor do genocídio contra o povo guarani, na Guerra do Paraguai.
Mas, nesses tempos tão confusos, de vez em quando surge uma pessoa que poderia se enquadrar nessa categoria.

Estou falando de Edward Joseph Snowden, o ex-analista da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, que teve a coragem de denunciar mais um gravíssimo crime daquele que se julga o mais poderoso país do mundo, e que por causa dessa auto-outorga já foi capaz de perpetrar genocídios em vários lugares desse planeta. Só como exemplo, Hiroxima e Nagasaki, para não falar dos mais recentes.

Segue sua carta ao governo Rafael Correa, do Equador:

Existem poucos líderes mundiais que arriscariam estar do lado dos diretos humanos de um indivíduo frente ao governo mais poderoso do planeta, e a valentia do Equador e seu povo é um exemplo para o mundo.

Devo expressar meu profundo respeito por seus princípios e meu sincero agradecimento pela ação de seu governo ao considerar minha solicitação de asilo político.

O governo dos Estados Unidos da América montou o maior sistema de vigilância do mundo. Este sistema global afeta toda a vida humana vinculada à tecnologia; gravando, analisando e julgando secretamente cada membro do público internacional. Supõe uma violação muito grave dos nossos diretos humanos universais quando um sistema político perpetua a espionagem automática, generalizada e sem garantias contra pessoas inocentes.

De acordo a esta crença, revelei este programa a meu país e ao mundo. Enquanto o público expressou seu apoio à luz que joguei sobre este sistema secreto de injustiça, o governo dos Estados Unidos da América respondeu com uma caça extrajudicial que me custou a minha família, minha liberdade de movimento, e meu direito a uma vida pacífica, sem medo a uma agressão ilegal.

Enquanto eu enfrento esta perseguição, houve um silêncio por parte daqueles governos temerosos do governo norte-americano e suas ameaças.

Equador, no entanto, se ergueu para defender o direto humano de buscar asilo. A ação decisiva do seu Cônsul em Londres, Fidel Narváez, garantiu que meus direitos fossem protegidos durante minha saída de Hong-kong. Nunca me arriscaria a viajar sem isso.

Agora, como resultado,  me mantenho livre e capaz de publicar informação que serve ao interesse do público.

Sem importar quantos dias me restam de vida, estarei dedicado a lutar pela justiça em um mundo desigual. Se algum destes dias contribui ao bem comum, o mundo deverá agradecer aos princípios do Equador.

Por favor,  aceite minha gratidão a você, como representante de seu governo, e do povo da República do Equador, assim como minha grande admiração pessoal por seu compromisso por fazer o que é correto, e não o que gera recompensa.”

Edward Joseph Snowden

 
DAS VISÕES SOBRE A ESPIONAGEM AMERICANA

O jornalista que assim se denomina Elio Gaspari, no artigo “A patriotada do grampo americano”, sobre a reação da presidenta Dilma à revelação de que a NSA (National Security Agency) grampeia as comunicações nacionais, utiliza um tom de menosprezo: “(...) no que se refere à estupefação diante dos grampos, o que há é puro teatrinho.”

Enquanto isso, o jornalista Mauro Santayana, no artigo “Dilma e a insolência dos EUA”, prefere ressaltar a indignação: “(...) A presidente Dilma Rousseff, ainda que ponderada, foi muito mais incisiva do que o chanceler Antonio Patriota. O ministro chegou a elogiar a disposição do Departamento de Estado em nos prestar esclarecimentos, pelas vias diplomáticas – como se isso fosse uma concessão do poderoso, e não uma prática da diplomacia clássica.

Já que o nome do ministro é Patriota, Pau Comeu foi ouvir outras manifestações, como a de Fernando Henrique Cardoso. Segundo consta, ele já se antecipou e garantiu que
“(...) nunca soube de espionagem da CIA no meu governo.”

O sítio Carta Maior já pensa diferente:
“(...) a empresa que coordenava o trabalho de grampos da CIA, a Booz-Allen, na qual trabalhava Edward Snowden, é uma das grandes empresas de consultoria mundial. No governo FHC, ela foi responsável por consultorias estratégicas contratadas pela esfera federal.

Mais grave ainda, continua:
“(...)a mesma empresa guarda-chuva do sistema de espionagem que operou no Brasil até 2002, a Booz Allen, foi a mentora intelectual de uma série de estudos e pareceres, contratados pelo governo do PSDB, para abastecer uma estratégia de alinhamento (‘carnal’, diria Menen) do Brasil com a economia dos EUA... Como se vê, as revelações de Snowden, ao contrário do que sugere a nota de FHC, definitivamente, não deveriam soar como algo inusitado aos círculos do poder, em Brasília. Se assim são tratadas, há razões adicionais para suspeitar que um imenso pano quente será providenciado para evitar que as sombras fiquem expostas à luz. A questão não se esgota em manifestar a indignação nacional pelo que Snowden denunciou. O que verdadeiramente não se pode mais adiar é a investigação pública do que foi espionado, com que finalidade e a mando de quem. Isso quem faz é uma Comissão Parlamentar de Inquérito”.

Se a CPI emplacar, FHC poderá alegar senilidade para não comparecer.
Dessa verdadeira salada de representações, somos levados a concluir que os únicos personagens decentes são Snowden, já referido na secção anterior, e Julian Assange, aquele do Wikileaks, que diz na matéria intitulada “Assange: independência da América Latina ainda engatinha”:

“(...) Se a população de um país inteiro é vigiada por país estrangeiro, há ameaça contra a soberania. Intervenção após intervenção nos assuntos da democracia na América Latina ensinaram-nos a ser realistas. Sabemos que os velhos poderes ainda explorarão, para benefício deles, qualquer possibilidade de retardar ou suprimir a eclosão da independência latino-americana”

 

A TRILOGIA DA TRINCA

Só para finalizar, o jornalista Elio Gaspari (assim ele se denomina) foi o autor da trilogia: “A ditadura envergonhada”, “A ditadura escancarada” e “A ditadura derrotada.”

Segundo João Amado, graduando em História na Universidade do Estado do Rio de Janeiro com especialização em História da Imprensa Brasileira, no artigo ILUSÕES ARMADAS - A ditadura de Gaspari:

“(...)A cobertura da imprensa preparou os leitores para ler os livros de Gaspari como grandes obras historiográficas. Afinal, "a propaganda é a alma do negócio".
(...)Essa campanha, que impôs uma "ditadura de Gaspari", é muito mais que comercial, tem reflexos na percepção dos brasileiros em relação à história do nosso país  o que talvez explique a acolhida que a grande imprensa deu aos livros.

(...)Elio Gaspari e seus livros viraram uma religião. Mesmo correndo o risco de ser queimado na fogueira, acusado de proselitismo ou heresia, vou aventar a hipótese desses livros não serem tão maravilhosos quanto a mídia afirma. A interpretação de Gaspari é superficial e ainda tenta isentar as classes empresariais transnacionais e organismos estadunidenses de maiores responsabilidades no golpe de 1964 e na repressão.“

O final do artigo é tão esclarecedor que merece ser citado na íntegra:

“Golpistas a soldo das multinacionais

Geisel, Golbery e Heitor Ferreira, os mocinhos da história de Gaspari, não só tinham ligações ideológicas e organizacionais com as classes empresarias transnacionais, como receberam salários do capital estrangeiro.
A promiscuidade dos mocinhos da estória de Gaspari com as empresas multinacionais é naturalizada. Golbery ganhou altos salários da Dow Química, mas Gaspari não viu problema nisso. A Dow deu esses salários para Golbery pela sua competência como administrador ou pela sua influência no governo ditatorial?

De raspão, Gaspari deixa escapar um pequeno exemplo do tipo de trabalho que Golbery fazia para a Dow: "O general não tinha simpatia pelo fortalecimento do BNDE e detestava Marcos Vianna. Haviam se desentendido num episódio em que Golbery defendia os interesses da Dow, cuja presidência só abandonaria nos primeiros dias de fevereiro. Numa simplificação grosseira, a Dow queria montar com financiamento do BNDE um pólo petroquímico próprio na Bahia. Vianna respondeu com uma carta dura. Golbery não o esqueceu (A ditadura derrotada, pág. 300)".
Em nenhum momento Gaspari questiona se era imoral o golpista (e lobista) ganhar altos salários da multinacional. Pelo contrário, Gaspari naturaliza o fato, dizendo que a briga com Marcos Vianna foi uma questão pessoal e não coloca em xeque a honestidade de Golbery. Aliás, quem indicou Golbery para a Dow foi o senhor Roberto Campos (Idem, nota na pág. 111).

Geisel também recebeu salários do capital multinacional: "Em junho de 1980, Geisel assumiu a presidência de uma empresa privada na área de química fina, a Norquisa, criada por um grupo de seus antigos colaboradores e funcionários na Petrobrás. O capital principal da Norquisa resultara de ações da Companhia Petroquímica do Nordeste (Copene), conglomerado de empresas estatais e privadas nacionais e estrangeiras,cujo conselho de administração também presidiu (http://www.cpdoc.fgv.br/dhbb/verbetes_htm/2304_9.asp)."
O obscuro Heitor Ferreira, uma espécie de co-autor do livro de Gaspari, segundo ele próprio, foi secretário de Golbery e Geisel e também trabalhou para o capital estrangeiro. Desligou-se do exército para ganhar dinheiro no projeto Jari, "investimento bilionário de um magnata americano" (A ditadura derrotada, pág. 201).

Como evidência de que as interpretações de Dreifuss e Ianni acerca da ligação entre o golpe, a ditadura e as empresas multinacionais estava correta, todos os mocinhos da estória de Gaspari, Golbery, Geisel e Heitor Ferreira, receberam salários das empresas multinacionais. Geisel e Golbery foram golpistas de carteirinha e Heitor, um típico cogumelo da ditadura.
Em suma, Gaspari conta a versão da história que interessa ao "andar de cima", ou seja, às grandes empresas multinacionais e nacionais, à "máquina de informação americana" e aos poderosos em geral. Tenta apagar os rastros da CIA no Brasil, (nos casos Chandler e Anselmo), omite quem foi Dan Mitrione e chama os guerrilheiros de "terroristas", mostrando de que lado está e a quem seus livros servem. O "andar de cima", comovido, agradece.”

ooo

Nada como o contraponto.
Nada como a democracia na comunicação.

Nada como desnudar falsas vestais.
Sugestão: a leitura da íntegra do artigo, revelador dessa estranha trilogia.

Pau Comeu desconfia, e o final do artigo leva a crer, que o jornalista Elio Gaspari (assim ele se denomina) foi co-autor dos referidos livros, em parceria com, além de Heitor de Aquino, nada mais, nada menos, Golbery do Couto e Silva (Chefe do SNI que monopolizava as informações da Ditadura). E deles extraiu informações privilegiadas para se fantasiar de autor único da malfadada trilogia.
Golbery, o general golpista citado como intelectual por muitos babaovos hipócritas e homenageado com fervor até pelo cineasta Glauber Rocha que disse, um dia, que: “Golbery é o gênio da raça!”

Millôr Fernandes deixou a frase: “O filme é uma merda, mas o diretor é genial!”. Será que se referia ao Glauber, também?
 

THE END

 É de bom tom terminar esta Edição com o texto “O PATRICIADO E A PLEBE”, publicado em Carta Maior, na 2ª feira, 15/07/2013. Confirma tudo que veio antes, e vai além.

 Elio Gáspari, Eugenio Bucci e  Merval Pereira manifestaram-se recentemente  contrários à proposta de plebiscito formulada pelo governo Dilma. Para eles, a iniciativa de reformar a estrutura política do país não guarda qualquer aderência com as inquietações recentes expressas nas ruas. Alckmin,Aécio, Ronaldo Caiado, Serra e Gilmar Mendes, entre outros, pensam assim também.


A palavra plebiscito costuma provocar urticária na sensível epiderme conservadora por conta do recorte político claramente embutido em sua etimologia. A história da palavra marca o encontro de dois termos latinos (plebs e scitum) que podem ser traduzidos como o ‘decreto da plebe', a ordenação social definida por ela, digamos assim. Outro entendimento deriva da  junção do latim, plebs scit .  E, neste caso, a colisão com a visão histórica do patriciado de todas as épocas é ainda mais inflamável: ‘a plebe sabe', dardeja a etimologia.

 Os centuriões da ordem, de todas as ordens, se arrepiam: se a plebe, o estamento intermediário na Roma antiga, sabe, em breve  os escravos evocarão também esse direito. A questão crucial em todas as travessias de ciclo histórico é a reforma do poder: 'quem sabe' definir melhor o passo seguinte da sociedade. 

 Elio Gáspari, nos anos 80, acreditava que quem sabia era o coronel Heitor Ferreira de Aquino. O porta-recados da ditadura, e secretário do general Golbery (segundo na hierarquia da ditadura Geisel), despachava regularmente com o então diretor-adjunto da revista 'Veja'. Não raro, na véspera do fechamento, a voz da secretária ecoava pressurosa pelos corredores da semanal dos Civitas: ‘Eeeliiiooo, o Heitor, o Heitor! 

 
E lá ia o atual crítico do plebiscito beber direto na fonte de quem sabia, na sua concepção de sabedoria. Heitor, uma espécie de faz-tudo de Golbery, de fato sabia. Muito. Um lado da história. Mas não toda ela. Sobretudo, não sabia o lado da rua.

O da plebe que a seus olhos, a exemplo do patriciado atual, estava alheia às questões do poder e da estrutura política. Até que em 1983 surgiu o ‘Diretas Já!' e, em 1988, uma Constituinte esticou o perímetro da cidadania a limites até hoje não digeridos pelo patriciado que, pelo visto, rechaça viver a experiência novamente.

 

Um comentário:

  1. Peço perdão aos leitores por não conseguir editar as imagens endereçadas no texto, por absoluta incompetência do autor. Agradeço ao leitor e amigo João Alves Filho pela contribuição e pela tentativa.

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