A paranóia que foi impregnada nos tempos da ditadura
milicar (é assim mesmo, revisão!), ultrapassou o período cor de chumbo,
desaguando no rascunho de democracia que se desenhou desde então. Deixou como
sugestão essa letra de samba-de-breque chamado “Crime hediondo”.
Pra não ser carimbado
como inadimplente
corri atrás do batente
entrei num coletivo
saltei no ponto final.
Dei de cara bem na frente
com a vitrine de um açougue
e a carne pendurada
despertou a minha fome
desejei o animal.
voltei a pé pro barraco
resolvi me alimentar.
Descolei um pão dormido
com um bife acebolado
maionese e coisa e tal
apliquei uma alface
fiz sanduba natural.
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Com o bucho sossegado
desmaiei na horizontal
não morguei
marquei bobeira
quando liguei a tevê
no Jornal Nacional.
Quase até perdi o rumo
com a manchete fatal:
“o Ministro de plantão
vai reprimir o consumo
e dar um pau
na inflação”.
Tremi nas bases, suei frio,
meu estômago
embrulhou,
tive até taquicardia,
minha pressão
bagunçou.
Vesti correndo a carapuça
sobre o pijama listrado
que é moda na prisão.
Passei a noite em claro
e de manhã apavorado
escrevi a confissão.
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Confesso que comi
aquele bife acebolado
mas já me arrependi.
Exagerei no consumo,
fui guloso, sabotei
o tal de Plano Real.
Sei que o bife
foi culpado
do repique da inflação,
devia ter jejuado,
não daria
confusão.
Desabafei com o vizinho
advogado, economista,
peagádê desempregado.
Me chamou de terrorista,
desgraçado, comunista,
era irmão do delegado...
Disse que cometi
crime hediondo
sem perdão,
meu lugar é na prisão.
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Do livro “O Samba é a Coisa”, de
Paulinho Pavaneli,
a ser lançado quando Deus quiser.
Quando escrevi esse samba, lembrei-me do Ubaldo,
O Paranóico, personagem do Henfil.
Cuidado com o que come!
POST SCRIPTUM:
Esse samba foi baseado
nas memórias da ditadura milicar... Quando o fiz não sabia em que tipo de crime
o personagem (eu) poderia ser enquadrado. Só agora, mais de 30 anos depois do “julgamento
do século”, com Super-BatBarbosa & Seus
BlackCaps, fiquei sabendo que foi (fui) condenado por ter cometido “Domínio do
Fato”.
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