segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Edição 3 - Especial "Crime Hediondo"


A paranóia que foi impregnada nos tempos da ditadura milicar (é assim mesmo, revisão!), ultrapassou o período cor de chumbo, desaguando no rascunho de democracia que se desenhou desde então. Deixou como sugestão essa letra de samba-de-breque chamado “Crime hediondo”.

 

 

 

Pra não ser carimbado

como inadimplente

corri atrás do batente

entrei num coletivo

saltei no ponto final.

 
Dei de cara bem na frente
com a vitrine de um açougue
e a carne pendurada
despertou a minha fome
desejei o animal.
 
Catei no bolso um trocado
que tinha sobrado
vi que dava pra encarar
voltei a pé pro barraco
resolvi me alimentar.
 
Descolei um pão dormido
com um bife acebolado
maionese e coisa e tal
apliquei uma alface
fiz sanduba natural.
 
 
Com o bucho sossegado
desmaiei na horizontal
não morguei
marquei bobeira
quando liguei a tevê
no Jornal Nacional.
 
Quase até perdi o rumo
com a manchete fatal:
“o Ministro de plantão
vai reprimir o consumo
e dar um pau
na inflação”.
 
Tremi nas bases, suei frio,
meu estômago
embrulhou,
tive até taquicardia,
minha pressão
bagunçou.
 
Vesti correndo a carapuça
sobre o pijama listrado
que é moda na prisão.
Passei a noite em claro
e de manhã apavorado
escrevi a confissão.
 
 
Confesso que comi
aquele bife acebolado
mas já me arrependi.
Exagerei no consumo,
fui guloso, sabotei
o tal de Plano Real.
 
Sei que o bife
foi culpado
do repique da inflação,
devia ter jejuado,
não daria
confusão.
 
Desabafei com o vizinho
advogado, economista,
peagádê desempregado.
Me chamou de terrorista,
desgraçado, comunista,
era irmão do delegado...
 
Disse que cometi
crime hediondo
sem perdão,
causei excesso
de demanda,
meu lugar é na prisão.
 

 


Do livro “O Samba é a Coisa”, de Paulinho Pavaneli,


a ser lançado quando Deus quiser.


 


Quando escrevi esse samba, lembrei-me do Ubaldo, O Paranóico, personagem do Henfil.

Cuidado com o que come!

 

POST SCRIPTUM:

 
Esse samba foi baseado nas memórias da ditadura milicar... Quando o fiz não sabia em que tipo de crime o personagem (eu) poderia ser enquadrado. Só agora, mais de 30 anos depois do “julgamento do século”, com  Super-BatBarbosa & Seus BlackCaps, fiquei sabendo que foi (fui) condenado por ter cometido “Domínio do Fato”.

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